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Os psicólogos e a burrice do demônio

  • 27 de jun.
  • 3 min de leitura

A burrice do demônio, para utilizar a expressão de Helio Peregrino no seu livro homonimo, manifesta-se não apenas como ignorância, mas como uma incapacidade estrutural de pensar a realidade para além das categorias prontas. Ela não é ausência de informação; é a perda da potência crítica. Quando essa lógica atravessa a formação dos psicólogos, produz profissionais altamente especializados em protocolos, classificações e técnicas, mas cada vez menos capazes de compreender a singularidade do sofrimento humano.


A despolitização da psicologia talvez seja um dos sintomas mais evidentes desse processo. Grande parte da formação contemporânea desloca a compreensão do sujeito de sua inserção histórica, econômica e social. O sofrimento deixa de ser pensado como expressão das contradições da existência e passa a ser reduzido a um conjunto de sintomas individuais. O psicólogo converte-se em gestor de comportamentos, e não em intérprete da experiência humana.


Essa despolitização acompanha outra transformação: a subjetividade neoliberal. O psicólogo passa a compreender a si mesmo como uma empresa. Investe em marketing, posicionamento digital, empreendedorismo e produtividade, enquanto sua formação filosófica, histórica e clínica se torna secundária. A clínica deixa de ser um espaço de encontro para tornar-se um produto. O paciente transforma-se em cliente, a escuta em serviço e o sofrimento em demanda de mercado.


Nesse contexto, o diagnóstico frequentemente deixa de ser uma hipótese clínica para converter-se em identidade. Incapazes de realizar um diagnóstico diferencial profundo — que exige conhecimento psicopatológico, teoria da personalidade, filosofia, sociologia e experiência clínica — muitos profissionais recorrem ao DSM como se fosse uma verdade absoluta. O manual, que deveria funcionar como uma classificação operacional, passa a ocupar o lugar da própria teoria. Em vez de perguntar "quem é este sujeito?", pergunta-se apenas "qual transtorno ele possui?".


As redes sociais agravam esse fenômeno. Influenciadores transformam conceitos complexos em conteúdo de consumo rápido. Transtornos tornam-se etiquetas de identidade, enquanto a formação clínica é substituída por vídeos curtos, listas e algoritmos. O conhecimento deixa de ser produzido pelo estudo rigoroso e passa a ser consumido como entretenimento.

Talvez o aspecto mais grave seja a perda da relação entre teoria e práxis. A teoria deixa de ser um instrumento para compreender a realidade concreta e torna-se apenas um conjunto de autores citados para conferir autoridade ao discurso. A práxis, entendida como unidade entre reflexão e ação transformadora, desaparece. O profissional aplica técnicas sem compreender as determinações históricas e subjetivas que produzem o sofrimento.


É nesse cenário que a chamada psicologia baseada em evidências recebe críticas de alguns autores. O problema não está na utilização de evidências empíricas em si, mas na possibilidade de uma leitura reducionista que considere válidas apenas as variáveis mensuráveis, relegando a segundo plano dimensões como a história de vida, o desejo, a cultura, a linguagem e a singularidade do sujeito. Nessa crítica, a objetividade corre o risco de transformar-se em objetificação.


A transferência revela esse limite. Muitos terapeutas parecem buscar rapidamente um diagnóstico ou um protocolo porque isso oferece segurança técnica diante da intensidade afetiva que emerge na relação clínica. O diagnóstico pode funcionar, em certos casos, como uma defesa do próprio terapeuta contra a angústia produzida pelo encontro com o inconsciente, o conflito e a imprevisibilidade do sujeito. Em vez de sustentar o vazio da escuta, refugia-se na classificação.


Nada disso significa que toda a psicologia esteja reduzida a esse modelo. Existem inúmeros profissionais comprometidos com uma clínica crítica, histórica e eticamente rigorosa.


Entretanto, a hegemonia de uma formação tecnicista, mercantilizada e profundamente adaptativa produz uma clínica que frequentemente responde mais às necessidades do mercado do que às necessidades da existência humana.


Talvez seja justamente essa a "burrice do demônio": uma inteligência técnica sofisticada combinada com uma incapacidade crescente de compreender o homem em sua profundidade.


Quanto mais se acumulam protocolos, diagnósticos e evidências, mais difícil se torna ouvir aquilo que escapa à classificação: a singularidade irredutível de cada


 
 
 

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