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A Condição Autística Segundo Freud

  • há 10 minutos
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Excepcionalmente, escrevi hoje um texto mais extenso — a relevância do tema assim o exige. Nele, proponho uma abordagem ensaística que combina reflexão filológica e análise metapsicológica da condição autística, a partir das contribuições de Sigmund Freud.


Na gênese do vocabulário psicanalítico para as patologias do desligamento da realidade, o ponto de partida freudiano reside na dinâmica da libido [Libido] e na economia dos investimentos de energia psíquica [Besetzungen].


Filologicamente, o vocábulo alemão Besetzung provém do verbo besetzen, que na língua alemã clássica e no léxico militar significa guarnecer uma fortificação, tomar posse de uma posição com tropas ou fixar carga e ocupação; Freud confere a esse termo a precisão mecânico-dinâmica de fixação quantitativa de energia pulsional [Triebenergie] sobre determinados traços de memória [Erinnerungsspuren] e representações [Vorstellungen]. Ao examinar as perturbações entre o indivíduo e o mundo circundante em “Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico” (1911), Freud recorre à expressão autistisch (autístico, do grego autós, "a si mesmo"), cunhada por Eugen Bleuler, comparando essa clausura inicial ao isolamento anobjetal do ovo:


Um belo exemplo de um sistema psíquico fechado aos estímulos do mundo externo, que satisfaz até mesmo suas necessidades de nutrição de forma autística [segundo uma palavra de Bleuler], é fornecido pelo ovo de ave encerrado em sua casca com sua provisão de alimento...” (FREUD, Sigmund. Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico (1911). In: Obras Completas, volume XI. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 231).


O interesse da formulação freudiana reside justamente na possibilidade de pensar o fechamento não apenas como ausência de relação, mas como uma modalidade particular de organização da economia psíquica. O que aparece exteriormente como isolamento pode, do ponto de vista metapsicológico, corresponder a uma operação de proteção, retenção ou concentração dos investimentos.


A questão fundamental deixa de ser apenas “por que o sujeito não se relaciona com o mundo?” e passa a ser: que economia psíquica sustenta essa forma particular de relação com o mundo?


A pulsão e a economia do investimento


Outro termo fundamental para essa discussão é Trieb. Traduzido frequentemente como “instinto”, especialmente nas primeiras tradições de tradução, o termo perde parte de sua especificidade conceitual. Trieb deriva de treiben, verbo relacionado a impelir, impulsionar, mover ou pressionar.


A pulsão, em Freud, não corresponde a um programa biológico determinado. Ela se situa na fronteira entre o somático e o psíquico e caracteriza-se por uma pressão constante em direção à satisfação [Befriedigung]. Seu objeto não é necessariamente fixo nem predeterminado. Por isso, a economia pulsional não pode ser compreendida apenas a partir da adaptação do organismo ao ambiente.

 

Essa distinção é fundamental quando se pretende abordar a condição autística a partir da ciência do sujeito. O sujeito da psicanálise não é simplesmente o organismo observado pela ciência experimental, nem se reduz ao conjunto de comportamentos que podem ser registrados externamente. Ele é constituído na relação entre corpo, linguagem, pulsão, desejo e alteridade.


Nesse sentido, o comportamento observável constitui apenas a superfície de uma problemática mais ampla. Um gesto repetitivo, uma vocalização, uma palavra, um objeto ou um determinado modo de organização corporal não devem ser tomados imediatamente como fenômenos dotados de um único significado universal. Seu valor subjetivo depende da posição que ocupam na economia singular daquele sujeito.


O Reizschutz e a proteção contra a excitação


Para pensar a relação do organismo com a intensidade dos estímulos externos, Freud introduz, em "Além do princípio do prazer" (1920), o conceito de Reizschutz. O substantivo é formado por Reiz, estímulo, excitação ou aquilo que incide sobre o organismo, e Schutz, proteção, defesa ou salvaguarda. Freud escreve:


Para o organismo vivo, a proteção contra os estímulos é uma tarefa quase mais importante do que a recepção dos mesmos; ele é dotado de uma reserva energética própria e deve esforçar-se, acima de tudo, por preservar as formas particulares de transformação energética que nele atuam contra a influência niveladora e, portanto, destruidora das energias descomunais que operam do lado de fora.” (— FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). In: Obras Completas, volume XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 11-75)


O Reizschutz não deve ser entendido apenas como uma barreira fisiológica. Dentro da elaboração freudiana, ele permite pensar uma função econômica: proteger o aparelho contra quantidades de excitação que poderiam ultrapassar sua capacidade de elaboração.

 

Quando essa proteção é rompida, Freud utiliza a expressão Durchbrechung des Reizschutzes, isto é, "ruptura ou transgressão da barreira protetora contra os estímulos". A experiência traumática aparece, então, associada à irrupção de uma quantidade de excitação que o aparelho não consegue ligar ou dominar adequadamente.


Essa formulação permite uma aproximação fecunda com a problemática autística, desde que não se transforme essa aproximação em equivalência conceitual. O fechamento do sujeito pode ser pensado, em determinada leitura metapsicológica, como uma modalidade de organização diante da intensidade das excitações, mas essa hipótese não autoriza afirmar que o autismo seja simplesmente consequência de uma falha do Reizschutz.


Da mesma maneira, não é possível atribuir diretamente a Freud a ideia de que essa proteção dependeria de um “anteparo fálico”. A articulação entre proteção contra a invasão do real, função fálica, corpo e borda pertence às elaborações lacanianas posteriores.


Representação de coisa, representação de palavra e constituição subjetiva


A questão da linguagem ocupa lugar central na passagem da metapsicologia freudiana para uma leitura estrutural do sujeito. Em "O inconsciente" (1915), Freud estabelece uma distinção fundamental entre Sachvorstellung e Wortvorstellung:


A representação consciente abrange a representação de coisa mais a respectiva representação de palavra a ela pertencente; a representação inconsciente é a representação de coisa isolada. O sistema Ics contém os investimentos de coisa dos objetos, os primeiros e genuínos investimentos objetais; o sistema Pcs surge na medida em que essa representação de coisa é sobreinvestida mediante a conexão com as representações de palavra que lhe correspondem.” (FREUD, Sigmund. "O inconsciente" (1915). In: Obras Completas, volume XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 165-222).


Filologicamente, Sache remete à coisa, ao objeto ou àquilo que se apresenta como matéria; Wort designa a palavra; e Vorstellung, derivada de vorstellen, significa colocar diante de si, representar ou apresentar mentalmente.

 

A importância dessa distinção está em demonstrar que a representação não é uma unidade simples. A passagem entre coisa e palavra implica uma operação de ligação, de inscrição e de articulação. O sujeito não se encontra simplesmente diante de um mundo que depois nomeia; sua própria relação com o mundo é mediada pelas formas simbólicas através das quais as experiências são inscritas e investidas.


É nesse ponto que a contribuição lacaniana permite avançar além da simples oposição entre isolamento e comunicação. Para Lacan, o sujeito não se confunde com o indivíduo psicológico. O sujeito é efeito da linguagem, mas não se reduz àquilo que a linguagem consegue representar. Há sempre uma dimensão de falta, de divisão e de não saber que impede sua completa apreensão pelo discurso.


Assim, quando se introduz a articulação entre S₁ e S₂, é importante reconhecer que estamos diante de uma elaboração lacaniana, e não de uma formulação diretamente encontrada em Freud. O S₁ pode ser compreendido como significante-mestre, enquanto S₂ representa, no encadeamento lacaniano, o saber que articula e faz série com o primeiro significante.


Na condição autística, determinadas manifestações significantes podem apresentar uma relação particular com a repetição, a vocalização, a palavra ou o corpo. Contudo, não se deve pressupor que exista uma única modalidade de funcionamento do significante em todos os sujeitos autistas. A psicanálise trabalha justamente com a singularidade da posição subjetiva.


A compulsão à repetição


Essa questão conduz ao conceito freudiano de Wiederholungszwang, a compulsão à repetição. A expressão reúne Wiederholung, repetição, e Zwang, coerção, compulsão ou força que constrange.


Em "Além do princípio do prazer" (1920), Freud escreve:

Uma pulsão seria, portanto, um impulso inerente ao orgânico vivente voltado à restauração de um estado anterior, o qual este ser vivo foi obrigado a abandonar sob a influência de forças perturbadoras externas...” (— FREUD, Sigmund. "Além do princípio do prazer" (1920). In: Obras Completas, volume XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 11-75).

 

A repetição não deve ser reduzida a uma simples reprodução mecânica. Na metapsicologia freudiana, ela aponta para uma dimensão que ultrapassa o princípio do prazer. Algo retorna, insiste e se reapresenta mesmo quando essa repetição não parece produzir prazer imediato.


Na leitura da condição autística, essa dimensão da repetição pode ser compreendida como uma questão relativa à economia subjetiva. Determinadas sequências, sons, movimentos, palavras ou objetos podem assumir uma função de continuidade e de organização. Não se trata, portanto, de perguntar apenas “o que o sujeito repete?”, mas qual função a repetição desempenha na economia de seu corpo e de sua relação com o Outro?


A repetição pode constituir uma forma de inscrição. Pode organizar o tempo, limitar a dispersão das excitações, produzir previsibilidade ou sustentar uma forma singular de satisfação. É nesse ponto que a repetição deixa de ser interpretada apenas como déficit e passa a ser interrogada como produção subjetiva.


A ciência do sujeito


É precisamente aqui que a psicanálise se distancia de uma ciência baseada exclusivamente na observação objetiva do comportamento. A ciência moderna procura construir um objeto mensurável, observável e generalizável. A psicanálise, sem negar a existência do organismo e dos fenômenos observáveis, introduz outra dimensão: a do sujeito.


O sujeito da psicanálise é dividido. Ele não coincide integralmente com sua consciência, com seu comportamento ou com aquilo que pode dizer sobre si mesmo. Freud inaugura essa ruptura ao formular o inconsciente como dimensão constitutiva da experiência humana.


Lacan radicaliza essa perspectiva ao afirmar que o sujeito é efeito do significante. Por isso, uma ciência do sujeito não pode limitar-se a perguntar o que o sujeito faz. Precisa perguntar também "qual é sua posição diante da linguagem, do corpo, do desejo, da pulsão e do Outro".


Essa perspectiva impede que a condição autística seja reduzida a um catálogo de comportamentos. O isolamento, a repetição, a ausência ou particularidade da fala, a relação singular com objetos, os movimentos corporais e as formas próprias de contato com o outro podem ser fenômenos observáveis, mas seu valor subjetivo não está dado de antemão.


Duas manifestações aparentemente semelhantes podem ocupar lugares completamente diferentes na economia psíquica de sujeitos distintos. Da mesma maneira, aquilo que para um sujeito constitui uma defesa pode, para outro, assumir a função de suporte, satisfação ou organização corporal.


A ciência do sujeito exige, portanto, uma mudança de posição epistemológica: o fenômeno não é tomado apenas como algo que deve ser explicado de fora, mas como algo que precisa ser escutado em sua singularidade.


O sujeito, o corpo e o Outro


A questão do corpo ocupa lugar privilegiado nessa discussão. Para a psicanálise, o corpo não se reduz ao organismo biológico. Há o corpo anatômico, mas há também o corpo investido pela libido, marcado pela linguagem e atravessado pela pulsão.


O corpo do sujeito é, portanto, um corpo que pode ser afetado pela palavra, pelo olhar, pela voz e pela presença do Outro. É nesse sentido que a experiência corporal não pode ser dissociada da constituição subjetiva.


Na leitura lacaniana, o Outro não é simplesmente outra pessoa. O Outro designa o campo da linguagem, da lei, dos significantes e dos discursos nos quais o sujeito se constitui. A relação com o Outro pode, portanto, adquirir modalidades muito particulares.


Pensar a condição autística a partir desse eixo significa investigar como determinado sujeito constrói sua relação com o Outro, como delimita seu corpo, como utiliza objetos, sons ou palavras e de que maneira estabelece suas próprias formas de circulação entre dentro e fora.


Essa perspectiva também permite compreender a chamada “borda” não como uma simples fronteira física, mas como uma construção subjetiva. A borda pode ser sustentada pelo corpo, pelo objeto, pela voz, pelo movimento ou por determinada organização repetitiva. Ela pode funcionar como uma espécie de dispositivo de proteção e de ordenamento da experiência.


Nesse ponto, a contribuição lacaniana permite formular uma hipótese importante: algumas soluções subjetivas podem funcionar como invenções destinadas a produzir uma distância possível em relação à invasividade do Outro e do gozo.


Do isolamento à invenção subjetiva


O termo “isolamento” pode conduzir facilmente a uma interpretação negativa. A psicanálise, entretanto, permite deslocar essa perspectiva. O fechamento pode não significar simplesmente ausência de mundo, mas uma determinada maneira de construir um mundo possível.

 

O sujeito pode recorrer a objetos, palavras, movimentos, sons, ritmos ou sequências repetitivas para produzir uma organização própria da experiência. Aquilo que aparece exteriormente como repetição sem finalidade pode possuir, para o sujeito, uma função precisa na economia de seu gozo.


Por isso, a pergunta psicanalítica não é simplesmente por que determinado comportamento ocorre, mas o que esse comportamento permite ao sujeito fazer com seu corpo, com sua pulsão e com sua relação com o Outro.


A condição autística, nessa perspectiva, não deve ser compreendida apenas como uma deficiência da relação social ou da comunicação. Ela pode ser investigada como uma modalidade singular de constituição e de organização subjetiva, na qual o sujeito encontra formas próprias de lidar com a linguagem, o corpo, a pulsão e o Outro.


Isso não significa negar a dimensão orgânica ou neurobiológica implicada nas condições do desenvolvimento. Significa apenas reconhecer que nenhuma descrição biológica, por mais precisa que seja, esgota a questão do sujeito.


A psicanálise introduz justamente aquilo que escapa à redução do indivíduo ao organismo: a dimensão do desejo, da fantasia, da pulsão, do gozo, da repetição e da singularidade.


Considerações finais


A análise filológica dos conceitos freudianos revela que o vocabulário da psicanálise não é meramente terminológico. Cada palavra carrega uma história conceitual que participa da construção de uma nova ciência do psíquico.


Besetzung introduz a dimensão do investimento; Trieb, a pressão pulsional; Reizschutz, a proteção contra a intensidade da excitação; Sachvorstellung e Wortvorstellung, a articulação entre coisa e palavra; e Wiederholungszwang, a insistência da repetição para além do princípio do prazer.


Quando esses conceitos são colocados em diálogo com a elaboração lacaniana, abre-se a possibilidade de pensar a condição autística não apenas como um conjunto de fenômenos observáveis, mas como uma questão relativa ao sujeito.


Nesse deslocamento, o autismo deixa de ser tomado exclusivamente como aquilo que falta ao indivíduo em relação a um padrão de normalidade e passa a ser interrogado a partir das soluções que o próprio sujeito constrói. A repetição pode ser uma forma de organização; o objeto pode funcionar como suporte; a voz pode adquirir uma função particular; o corpo pode constituir uma borda; o significante pode encontrar formas singulares de inscrição.

 

A questão central passa, então, da adaptação para a subjetividade: como esse sujeito constrói para si uma forma possível de estar no mundo?


É nessa pergunta que a psicanálise encontra sua especificidade. Seu objeto não é simplesmente o comportamento, nem exclusivamente o organismo, mas o sujeito dividido, atravessado pela linguagem e pela pulsão, cuja singularidade não pode ser inteiramente capturada por categorias universais.


A ciência do sujeito começa precisamente onde o fenômeno deixa de ser apenas observado e passa a ser interrogado em sua dimensão de sentido, de repetição, de desejo e de gozo.


Nesse horizonte, pensar a condição autística é também pensar as diferentes maneiras pelas quais um sujeito pode inventar uma forma própria de existência diante do corpo, da linguagem e do Outro.

 
 
 

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