A Coisificação dos Psicólogos
- há 7 horas
- 5 min de leitura

O cenário contemporâneo da formação e do exercício profissional da psicologia no Brasil expõe de forma dramática as fissuras ontológicas da sociabilidade burguesa em sua fase de crise estrutural. A proliferação desmesurada de faculdades privadas voltadas ao ensino superior transformou o diploma universitário em mera mercadoria e engendrou uma massa de egressos tecnicamente débeis, desprovidos de sustentação epistemológica e historicamente alienados de sua própria condição de classe.
Arremessados em um mercado saturado, esses trabalhadores intelectuais experimentam uma aguda precarização material — expressa no pauperismo absoluto, nas campanhas de arrecadação para subsistência alimentar imediata e no endividamento crônico —, ao mesmo tempo em que preservam, como mecanismo compensatório, a ilusão ideológica de pertencerem a uma casta liberal autônoma. O resultado é o esvaziamento crítico da disciplina, substituída por disputas dogmáticas de métodos terapêuticos concebidos como marcas de consumo, sob o controle disciplinar de aparatos de classe que mimetizam a vigilância panóptica do Estado burguês.
Para desvendar os fundamentos dessa contradição, faz-se indispensável recorrer às formulações de György Lukács em torno da coisificação [Verdinglichung] e da consciência de classe. Em "História e Consciência de Classe" (1923), o filósofo húngaro demonstra que a forma-mercadoria não opera apenas como categoria econômica, mas como o princípio estruturante de todas as esferas da vida, subsumindo as faculdades humanas, a cognição e a subjetividade às leis abstratas da troca de equivalentes:
"A essência da estrutura da mercadoria tem sido apontada com frequência: baseia-se no fato de que uma relação entre pessoas adquire o caráter de uma coisa e, dessa forma, uma 'objetividade fantasmagórica', a qual, em sua estrita, aparentemente racional e abrangente legalidade própria, encobre todo vestígio de sua essência fundamental: a relação entre seres humanos." — LUKÁCS, György. Geschichte und Klassenbewußtsein: Studien über marxistische Dialektik. Berlin: Malik-Verlag, 1923, p. 94.
A psicologia consolidou-se enquanto disciplina científica autônoma sob esse exato influxo da alienação capitalista. Ao cindir o indivíduo da totalidade social das relações de produção, erigiu o sujeito atomizado em ponto de partida absoluto da análise da alma. A consciência burguesa, estruturalmente incapaz de transcender a imediaticidade fenomênica para apreender a totalidade do processo histórico, aprisionou a psicologia em antinomias intransponíveis: o psiquismo versus a matéria, o biológico versus o ambiental, o individual versus o social. Essa limitação cognoscitiva decorre diretamente do horizonte social da classe dominante, para a qual as leis da reprodução do capital precisam comparecer como uma segunda natureza, inviolável e eterna.
Ao ser convertida em produto de prateleira no modelo universitário mercantilizado, essa falência teórica radicaliza-se. A formação do psicólogo prescinde do rigor filosófico e da dialética materialista em favor de um adestramento pragmático, puramente utilitário, concebido para responder às demandas de inserção em nichos mercadológicos.
Desconhecendo a história do pensamento e as determinações ontológicas de sua própria prática, esses sujeitos operam categorias que ignoram, reduzindo a práxis clínica a um receituário técnico desvinculado das condições concretas de produção da vida.
É precisamente nessa amputação epistemológica que repousa o verdadeiro "serviço social" que a psicologia presta à conservação da ordem burguesa. A função basilar dessa ciência não tem sido a emancipação do sujeito, mas a amortização ideológica das contradições do capital. Diante do esgotamento físico, da humilhação cotidiana no trabalho, do desemprego e da desesperança social — sintomas diretos da exploração capitalista —, a intervenção psicológica padrão atua no sentido de despolitizar a dor. O sofrimento é extraído de sua base ontológica e privatizado no recôndito da psique individual: prescreve-se "resiliência", "regulação emocional", "ressignificação" e controle de conduta para restaurar a funcionalidade laborativa dos corpos exaustos.
Ao tratar o colapso subjetivo gerado pela barbárie como uma inadequação particular ou um déficit cognitivo, a psicologia desempenha o papel de lubrificante da máquina de exploração, devolvendo o trabalhador em condições mínimas de ser consumido pelo processo de valorização do valor.
Contudo, a contradição atinge o paroxismo quando essa mesma lógica reificante abate-se sobre os próprios operadores da técnica. A precarização do trabalho no capitalismo tardio desmantelou a base material das profissões liberais clássicas, convertendo o psicólogo em um membro flagrante do proletariado. Desprovido de consultórios estáveis e dependente de plataformas digitais precarizadoras, o profissional depara-se com a carência elementar de subsistência, apelando à caridade de seus pares para a própria alimentação.
Não obstante essa realidade aviltante, opera-se o fenômeno que Lukács diagnosticou como falsa consciência [falsches Bewußtsein]: os indivíduos, submetidos à imediaticidade da sobrevivência, não conseguem articular teoricamente a sua degradação material com a dinâmica global da totalidade capitalista.
Em sua análise sobre os limites inerentes ao pensamento aprisionado pela reificação, Lukács expõe a impossibilidade burguesa de enxergar o processo em seu conjunto:
"Pois onde a aparência toca imediatamente a forma de existência dos objetos, onde o sujeito é incapaz de apreender a totalidade como um todo, aí a mera imediaticidade tem de apresentar-se como o mais alto e o mais profundo, ao passo que ela é, em verdade, apenas o momento abstrato da totalidade." — LUKÁCS, György. Geschichte und Klassenbewußtsein: Studien über marxistische Dialektik. Berlin: Malik-Verlag, 1923, p. 182.
Incapazes de apreender a totalidade e, por conseguinte, de organizar uma luta política coletiva contra a base real de sua exploração, os psicólogos transferem essa angústia material para disputas doutrinárias autofágicas. O apego fervoroso a determinadas correntes teóricas — psicanálise, abordagens comportamentais, fenomenológicas ou neurocientíficas — surge não como um embate dialético de ideias, mas como fetichismo de marca. A filiação abstrata a uma linhagem terapêutica transforma-se em capital simbólico fictício com o qual se tenta valorizar a própria força de trabalho aviltada no mercado. É a disputa desesperada de mercadorias defeituosas em uma prateleira em liquidação, em que cada qual proclama a superioridade técnica de sua metodologia de conserto da alma humana para atrair a demanda escassa de clientes.
Nesse vácuo de politização e clareza de classe, os aparatos institucionais completam o quadro de coerção e espoliação. O Conselho de classe assume o papel de superintendente disciplinar, operando um policiamento estritamente formal e punitivo que mimetiza o rigor da burocracia estatal. Pune-se o desvio burocrático e a falha de protocolo para sustentar a ficção de uma "respeitabilidade profissional", ao mesmo tempo em que a instituição se revela absolutamente conivente e impotente diante da miséria ontológica e econômica na qual a massa de seus inscritos se afunda.
Em paralelo, a burocracia sindical parasita a precariedade, extraindo contribuições de profissionais desprovidos de representação real e dissociados de qualquer projeto histórico de transformação das relações sociais.
Em última instância, a crise dos coletivos profissionais de psicologia expõe o destino inexorável de toda ciência forjada nos limites da racionalidade burguesa quando confrontada com o declínio material dessa mesma ordem. Uma disciplina que nasceu apartando a mente das condições objetivas de produção da vida acaba devorada pela própria materialidade que tentou suprimir de seu horizonte. Ao restringir o olhar à imediaticidade da psique e ao operar como instrumento de apaziguamento da barbárie social, a psicologia contemporânea condena seus executores a serem autômatos reificados: incapazes de curar a dor alheia porque impotentes para emancipar a si mesmos da crua miséria do capital.



Comentários