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Como a Família Produz Monstros

há 7 minutos
6 min de leitura


A compreensão convencional da delinquência juvenil frequentemente ancora-se na hipótese da privação afetiva e do desmantelamento da ordem doméstica como vetores etiológicos primordiais da conduta violenta. Contrapondo-se a este axioma criminológico e sociológico vulgar, o presente artigo investiga as dinâmicas subjetivas e intersubjetivas observadas na prática clínica e interventiva no âmbito da proteção à infância e juventude, nas quais adolescentes infratores emergem de núcleos familiares caracterizados por hiperinvestimento narcísico intragrupal concomitante a uma hostilidade predatória direcionada à esfera pública.


Apoiando-se no instrumental teórico da Teoria Crítica da Sociedade, com ênfase nas obras de Herbert Marcuse, Max Horkheimer e Theodor W. Adorno, demonstra-se como a consagração do filho como objeto fetichizado («bezerro de ouro») e o desprezo sistemático pela alteridade exterior expressam a radicalização do princípio do desempenho (performance principle), a privatização anômica de Eros e a dessublimação repressiva. Conclui-se que o delinquente forjado sob esse enquadramento não representa uma disfunção ou anomia marginal, mas a encarnação hiperbólica e plenamente adaptada da racionalidade instrumental e do individualismo possessivo burguês.


O Falso Paradoxo do Excesso Afetivo


​No horizonte das pesquisas em psicologia social, criminologia crítica e intervenção tutelar, a gênese dos atos infracionais cometidos por adolescentes costuma ser atribuída quase reflexivamente à precariedade vincular, ao abandono material e moral ou à desestruturação familiar.


Contudo, a práxis interventiva e a escuta clínica revelam recorrentemente uma topologia subjetiva antitética, mas de igual ou maior virulência: sujeitos envolvidos em atos violentos sistemáticos cujas matrizes familiares não exibem carência, mas sim uma hipertrofia afetiva endógena, acompanhada de aberta animosidade contra o tecido comunitário exterior.


​Nesses arranjos, a dinâmica parental manifesta-se através de uma cisão estrutural da conduta moral: internamente, o núcleo opera mediante reverência irrestrita à descendência — alçada à condição de totem ou "bezerro de ouro" intocável — e fidelidade incondicional aos pactos domésticos; externamente, contudo, impera uma atitude sistematicamente violenta, desprovida de empatia, orientada pela destituição da dignidade alheia e pela convicção de uma superioridade moral e ontológica de sua estirpe.


O senso comum tende a enxergar nessa conjuntura uma contradição intransponível: como um sujeito alvo de tamanha devoção afetiva doméstica converte-se no executor da violência predatória na pólis?


​Para elucidar essa questão, este estudo recorre à Teoria Crítica desenvolvida pela primeira geração da Escola de Frankfurt, com destaque prioritário para a reflexão filosófica e sociopsicanalítica de Herbert Marcuse.


Sob essa grade conceitual, a contradição entre a indulgência doméstica e a barbárie social pública dissolve-se: a hipervalorização consanguínea aliada à crueldade externa nada mais é do que a operação precisa da família burguesa enquanto agência de reprodução ideológica e treinamento para a subsunção ao capital.


A Mais-Repressão e o Princípio do Desempenho na Economia Psíquica


​Em sua refundamentação ontológica e política da metapsicologia freudiana, formulada em “Eros e Civilização” (1955), Marcuse introduz duas distinções fundamentais para compreender como o aparelho instintual humano é moldado historicamente pelas formas de produção e dominação: a diferença entre a repressão básica e a mais-repressão (surplus-repression), e a vigência histórica do princípio de realidade sob a forma específica do princípio de desempenho (performance principle).


​A repressão básica, nos termos marcusianos, concerne à renúncia instintual estritamente necessária para a coexistência social e a sobrevivência da espécie contra a escassez material primária.


A mais-repressão, por outro lado, denota o sobrepeso de coerção imposto não pela necessidade objetiva da natureza, mas pelas exigências de preservação de uma determinada ordem de classe e de dominação hierárquica. Marcuse formula o problema nos seguintes termos:


​"A mais-repressão introduz um controle adicional sobre e acima daquele que seria exigido pela organização 'racional' da sociedade humana. Sob o princípio do desempenho, o corpo e a mente são transformados em instrumentos de trabalho alienado; e só podem sê-lo se forem desviados de sua meta natural: a gratificação."

(MARCUSE, 1955, p. 37-38).


​O princípio do desempenho redefine a sociabilidade de tal modo que o valor ontológico do indivíduo passa a ser indexado à sua capacidade competitiva de submeter o mundo e os semelhantes.


No núcleo familiar que erige a criança como um ente inatacável e soberano, essa mais-repressão opera por via invertida, não através da negação explícita, mas da canalização predatória do narcisismo infantil.


​O indivíduo não é educado para a autonomia moral ou para a responsabilidade universalizável em relação à espécie humana; ao contrário, ele é adestrado na certeza de que a satisfação de suas pulsões decorre de sua posição de supremacia face àqueles que não compartilham seu código genético ou patrimonial.


A repressão dos impulsos de solidariedade transindividual consolida a premissa de que a consideração ética pelo outro é fraqueza e concessão incompatíveis com as exigências de desempenho da ordem vigente. Produz-se Monstros.


A Família Burguesa como Agência Socializadora da Barbárie


​A cisão entre a virtude privada e a predação pública remonta ao estudo histórico-filosófico inaugural empreendido pelo Instituto de Pesquisa Social em “Studien über Autorität und Familie” (1936) – não existe edição em portugues. Ao examinar o papel da família na gênese da obediência cega e da predisposição à tirania, Marcuse e Horkheimer demonstraram que o espaço privado não funciona como antídoto, refúgio idílico ou antítese do capitalismo predatório, mas como sua base reprodutiva mais eficaz.


​No ensaio dedicado ao desenvolvimento das teorias da autoridade na filosofia burguesa, Marcuse esclarece:


​"A família burguesa é a célula germinal da sociedade burguesa, na qual as relações de autoridade e a prontidão para a submissão ao existente são incessantemente reproduzidas. Ela protege o indivíduo da sociedade apenas para melhor prepará-lo para ela." (MARCUSE, 1936, p. 195).


​Quando os pais praticam o desrespeito violento e sistemático para com os cidadãos externos enquanto mantém uma dinâmica interna de mútua bajulação, eles transmitem à sua prole uma cartilha formativa perversa: a alteridade fora dos limites da consanguinidade é destituída de subjetividade e valor ontológico.


A solidariedade perde seu caráter ecumênico e universalista para converter-se em um corporativismo de linhagem, no qual a família reproduz microscopicamente a lógica da acumulação primitiva e da defesa da propriedade privada contra "invasores".


​O amor materno e paterno, quando desprovido da mediação da universalidade ética e da reciprocidade humanitária, transmuta-se em egoísmo ampliado (famille égoïste).


Em termos psicanalíticos frankfurtianos, tal dinâmica reproduz os mecanismos de projeção identificados por Adorno e seus colaboradores em “A Personalidade Autoritária” (1950):


​"O padrão convencionalista acompanha um impulso agressivo subjacente contra o grupo externo. A adesão rígida aos valores convencionais de classe média e a atitude submissa e acrítica para com as autoridades morais idealizadas do próprio grupo implicam a rejeição de todos os grupos externos." (ADORNO et al., 1950, p. 228).


​O adolescente que testemunha seus pais desrespeitarem sistematicamente profissionais da educação, vizinhos, agentes estatais ou terceiros no espaço público não apreende um descompasso moral, mas uma hierarquia de dominação: a sua classe e o seu núcleo familiar possuem salvo-conduto para agir preatoriamente, visto que os "outros" são seres humanos de valor secundário, meros obstáculos à satisfação das vontades de sua linhagem.


O Fetichismo da Prole e a Dessublimação Repressiva


​A deificação do filho como um "bezerro de ouro" introduz uma dimensão religiosa e fetichista na alienação parental. Trata-se da conversão da criança em uma mercadoria suntuária da própria família, reflexo inflado do narcisismo parental desmesurado que busca na descendência a confirmação de sua transcendência e domínio sobre o mundo material.


​Em “A Ideologia da Sociedade Industrial: O Homem Unidimensional” (1964), Marcuse descreve como as sociedades industriais avançadas orquestram o que denominou de dessublimação repressiva (repressive desublimation).


Longe de representar a simples contenção puritana da libido e dos instintos de agressão, a ordem unidimensional opera por meio da liberação controlada e administrada desses impulsos em direções socialmente funcionais à manutenção do poder:


​"Esta mobilização e administração da libido pode explicar muito da conformidade voluntária, da ausência de terror, da harmonia pré-estabelecida entre as necessidades individuais e os desejos, metas e aspirações socialmente requeridos. Toda a sociedade parece estar organizada contra a ruptura desta conformidade." (MARCUSE, 1964, p. 79).


​A violência do jovem delinquente originário de lares superprotetores e autoritários corporifica essa dessublimação repressiva. A hostilidade que não pôde ser sublimada em engajamento coletivo, criação cultural ou empatia ética é liberada diretamente contra alvos sociais vulneráveis. Essa delinquência não constitui um protesto rebelde contra a estrutura burguesa; antes, é o seu exercício em estado quimicamente puro.


​Ao cometer a agressão ou desrespeitar normas públicas, o sujeito atua em estrita consonância com a ideologia internalizada: ele afirma ativamente o privilégio de sua casta. A agressão não é um desvio que sinaliza a ausência de normas, mas o acatamento vigoroso da norma oculta do capitalismo concorrencial, onde o direito do mais forte triunfa sobre qualquer pacto comunitário. A alteridade é reificada — convertida em objeto inerte [Verdinglichung] —, de sorte que ferir, humilhar ou subjugar outrem nada mais é do que o descarte de matéria insignificante perante o brilho inconteste do ídolo doméstico.


Nasce o Monstro.


A Delinquência como Adaptação Hiperbólica


​A análise marcusiana permite desconstruir a aparente incongruência entre o excesso de afeto intrafamiliar e a agressão manifestada no espaço público. O fenômeno empírico observado nas rotinas de conselhos tutelares e atendimentos clínicos não decorre da falta de amor, mas de sua deformação ideológica profunda: o afeto privatizado e desvinculado de qualquer dimensão universal emancipatória converte-se em cumplicidade tribal e ressentimento sociopata.


​Ao sacralizarem os filhos em detrimento do mundo, pais violentos e autoritários não constroem sujeitos dotados de consciência crítica ou capacidade ética de julgamento autônomo, mas sim vetores acríticos do princípio de rendimento. O jovem que se engaja em atos de delinquência predatória a partir dessa matriz sociofamiliar não desafia os cânones da dominação social: ele simplesmente os executa com extrema fidelidade, revelando a face crua de uma moralidade burguesa que, por trás da máscara do purismo doméstico, sempre dependeu da exploração e da violência contra os despossuídos de privilégio para garantir a perpetuação da sua própria soberania.

 
 
 

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