top of page
Buscar

O Sufocamento do Eu: A Apneia como Sintoma e Protesto

  • Foto do escritor: Giovanni Alves
    Giovanni Alves
  • há 3 horas
  • 2 min de leitura

A medicina neurológica apressa-se em medir a resistência das vias aéreas e a saturação do oxigênio, mas frequentemente negligencia a pergunta fundamental: o que o sujeito não consegue mais respirar? No fenômeno da apneia do sono, onde a vida é subitamente interrompida por uma pausa involuntária na respiração, encontramos o que poderíamos chamar de um "ato falho do corpo".

Diferente do esquecimento de uma palavra ou do tropeço da língua (Versprechen), a apneia atua no silêncio da noite, no estado de repouso onde as defesas do Eu estão relaxadas. Quando o ambiente doméstico se torna um campo de forças devastadoras e a figura que deveria nutrir passa a "sufocar" a existência — seja pelo controle, pela cobrança financeira ou pela aniquilação simbólica —, o aparelho psíquico processa essa opressão como um perigo real de morte.

Neste contexto, a interrupção da respiração durante o sono pode ser interpretada sob dois prismas:

  1. A Identificação com a Morte: Diante de uma realidade insuportável, o inconsciente encena o fim. A pausa respiratória é o espelho somático da paralisia subjetiva. O sujeito para de respirar porque, em sua realidade psíquica, já não há mais espaço para a expansão de seus pulmões — ou de seu desejo.

  2. O Pedido de Socorro Silencioso: O despertar súbito, muitas vezes acompanhado de angústia, funciona como um alarme. É o esforço heroico do organismo para não sucumbir ao "sufocamento" que a vida vigilante lhe impõe. O ato de levantar-se para fumar no meio da noite, embora fisicamente prejudicial, revela-se como uma tentativa desesperada de "tomar ar", de encontrar um momento de autonomia e prazer oral solitário, longe da vigilância do objeto devastador.

A apneia, portanto, não é apenas um colapso fisiológico; é uma manifestação da ambivalência. O sujeito quer descansar, mas não pode se entregar ao sono porque o "lugar do repouso" (o lar, o leito) tornou-se o lugar do perigo. O corpo, então, produz um sintoma que é, ao mesmo tempo, a realização do medo (o sufoco) e a tentativa de cura (o despertar para a sobrevivência).

O tratamento desses casos exige que o analista ajude o paciente a transformar o "sofrimento orgânico mudo" em "palavra eloquente". Somente quando o sujeito puder nomear os seus sufocadores externos e internos, ele poderá dispensar o corpo da tarefa de gritar por socorro através da asfixia.

 
 
 

Comentários


bottom of page