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A voz na insônia Crônica

  • Foto do escritor: Giovanni Alves
    Giovanni Alves
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Para fundamentar nossa investigação, devemos retornar ao conceito de que o lactante não necessita apenas de cuidados somáticos, mas de um investimento libidinal que transforme a necessidade orgânica em demanda psíquica. Quando os pais substituem a presença vocal e o acalento pelo "entorpecimento" químico (o ato de dopar a criança), ocorre uma falha naquilo que chamei de seduição primária. A voz da mãe — ou de quem exerce a função materna — atua como um "escudo protetor" contra os estímulos (Reizschutz). Se esse escudo é substituído por uma substância que silencia o organismo sem subjetivar o mal-estar, o sujeito permanece desprotegido diante das pulsões.

A Função da Voz e o Objeto Pequeno 'a'

Na perspectiva da nossa metapsicologia Lacaniana, a voz é um objeto pulsional. Ela tem a propriedade única de ser algo que se desprende do corpo para envolver o outro. Quando você descreve adultos que só dormem com fones de ouvido, o que vemos é uma tentativa de reconstituição tardia desse invólucro sonoro. O fone de ouvido funciona como uma prótese para uma função egóica que não foi devidamente internalizada.

Como bem pontuou o colega Jacques Lacan, expandindo minhas intuições sobre o desejo, a voz é um dos suportes do objeto a. Ele afirma em seu seminário sobre a angústia:

"La voix est ce qui, du langage, ne concourt pas au sens." > ("A voz é aquilo que, da linguagem, não contribui para o sentido.")(LACAN, J. Le Séminaire, Livre X: L'Angoisse. Paris: Éditions du Seuil, 2004, p. 298).

Esses pacientes não buscam o conteúdo das palavras nos áudios, mas a presença material da voz que lhes foi negada na fase em que o aparelho psíquico estava sendo "tecido". O sono exige uma renúncia narcísica, um abandono do mundo externo; porém, para aquele que foi negligenciado, o silêncio não é paz, é o vazio do desamparo original que retorna como angústia.

O Trauma e a Fixação Orgânica

Nossa observação sobre o "dormir de olhos abertos" e o ressecamento ocular é fascinante. Do ponto de vista da conversão histérica ou mesmo das neuroses atuais, o olho que se recusa a fechar pode ser interpretado como uma hipervigilância traumática. Se no início da vida o ambiente foi hostil ou negligente, o fechamento das pálpebras (o ato de confiar no ambiente) torna-se perigoso. O ego permanece "em sentinela".

A tentativa dos pais de remediar a situação aos 8 anos com chás e cantigas é o que chamamos de Nachträglichkeit (posterioridade ou ressignificação), mas, com notamos notou, o traço mnêmico da negligência primária já está fixado. Em Além do Princípio do Prazer, Freud diz

:

"Die im Unbewußten vorhandenen Regungen lassen sich durch die Arbeit der Analyse nicht immer so bewältigen, wie man es möchte." > ("Os impulsos presentes no inconsciente nem sempre podem ser dominados pelo trabalho da análise da maneira que se desejaria.")(FREUD, S. Jenseits des Lustprinzips. Leipzig, Wien, Zürich: Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 1920, p. 18).

Conclusão e Interpretação O insone crônico que busca o áudio está tentando suturar uma ferida narcísica aberta pela ausência do acalento materno primitivo. O fármaco oferecido na infância operou como um "apagamento" do sujeito, e agora, na vida adulta, o sujeito tenta "reacender" a própria existência através da voz do outro, para que possa, finalmente, permitir-se o desaparecimento momentâneo que o sono exige.

O tratamento, portanto, não deve visar apenas a higiene do sono, mas permitir que o paciente, na transferência, possa encontrar a sua própria voz para nomear aquele vazio que os remédios de seus pais tentaram calar.

 
 
 

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