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Sobre a Morte de Orelha

  • Foto do escritor: Ana Celeste Alves Casulo
    Ana Celeste Alves Casulo
  • há 2 horas
  • 2 min de leitura


A história do cão Orelha não é apenas um relato sobre crueldade animal; é um estudo de caso profundo sobre identidade social, coesão grupal e o choque simbólico de classes.

​Sob a lente da Psicologia Social, podemos analisar como um animal deixa de ser "propriedade" para se tornar o amálgama de uma comunidade.


​O Cão como Ponto de Ancoragem e Identidade


​Para uma comunidade de trabalhadores pobres, o cão comunitário funciona como um ponto de ancoragem. Em ambientes de escassez e luta diária, a figura do animal oferece o que a Psicologia chama de suporte social não-avaliativo.


​Diferente das relações humanas, muitas vezes pautadas por trocas e expectativas, o amor do cão é incondicional. Ele se torna um símbolo da identidade coletiva: cuidar do Orelha era, na verdade, cuidar de si mesmos e do vínculo que os une. Ele era o "nós" em forma de ser vivo.


​A Teoria do Mundo Justo e o Trauma Coletivo


​Quando "ricos desocupados" tiram a vida de um animal tão significativo por capricho, ocorre uma ruptura violenta na Teoria do Mundo Justo — a crença psicológica de que o mundo é minimamente previsível e que coisas boas acontecem a quem é bom.

​Desumanização do Outro: Para os agressores, o cão era um objeto descartável, um reflexo da forma como enxergam a própria comunidade pobre.


​Agressão Simbólica: Matar o cão não foi apenas um ato contra o animal, mas um ataque à harmonia e à dignidade do vilarejo. Foi uma tentativa de demonstrar poder sobre o único patrimônio afetivo daquelas pessoas.


​O Signo da Solidariedade Orgânica


​Orelha representava o que Émile Durkheim e psicólogos sociais chamam de solidariedade orgânica. Em um lugar onde falta o capital financeiro, o "capital social" (confiança, redes de apoio e afeto) é o que mantém a estrutura em pé.


​O cão era o "Signo Vivo" porque sua existência provava que, apesar da pobreza material, o vilarejo era rico em humanidade. Sua morte transforma o luto individual em uma indignação coletiva, que pode servir tanto para desestruturar a comunidade pelo trauma, quanto para fortalecer a luta por justiça e reafirmação de seus valores.


​"O extermínio do Orelha foi uma tentativa de silenciar a alegria de quem tem pouco, mas, ironicamente, transformou o cão em um mito, e mitos são indestrutíveis para a psicologia de um povo."

 
 
 

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