Sobre o Ano Novo
- 1 de jan.
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Atualizado: 31 de jan.

Dir-se-ia, neste tempo que se chama “virada do ano”, que algo de decisivo se inaugura — como se o calendário, ao girar, trouxesse consigo a promessa de um novo sujeito. Engano necessário, talvez, mas ainda assim engano.
Pois o tempo, esse, não vira — ele insiste.
O que se transforma não é o ano, mas a maneira como cada um faz laço com aquilo que o move. Não há magia no número que se escreve de novo; há, sim, no desejo que persiste, mesmo quando não sabemos nomeá-lo. A “mágica”, se há palavra que se arrisque aí, encontra-se no que nos convoca, no que nos sustenta, no que nos acolhe no ponto mesmo em que somos estrangeiros de nós.
A festa, os fogos, a contagem regressiva — tudo isso pode nos seduzir com a imagem de um recomeço absoluto. Mas o sujeito não recomeça: ele retorna. Retorna ao seu modo de desejar, ao seu modo de se perder e de se reencontrar naquilo que o faz seguir.
O que conta, então, não é o espetáculo do instante, mas o gesto discreto que, a cada dia, permite habitar o próprio caminho — não como promessa de perfeição, mas como abertura ao que ainda pode advir.
Se há algo de novo, ele não se dá porque o ano mudou.
Ele se dá quando, por um breve instante, consentimos em escutar aquilo que, silenciosamente, já nos movia.



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