O Amor, Uma Invenção
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Se há um ponto onde Lacan crava seu bisturi com a precisão de um corte cirúrgico, é neste enunciado célebre e perturbador: "A relação sexual não existe."
Não se trata de uma provocação gratuita ou de uma negação do ato sexual, mas da afirmação de uma falha estrutural: não há fórmula simbólica que escreva a relação entre os sexos de maneira complementar, recíproca, harmônica.
Não há Um que se encaixe no Outro. O sexo, para Lacan, não é natural, é traumático — e é por isso que falamos tanto dele, sonhamos, fantasiamos, normatizamos, regulamos.
O desencontro entre os sexos é constitutivo do sujeito.
Homens e mulheres — ou melhor, sujeitos barrados pela linguagem — não se encontram no terreno do gozo como dois encaixes perfeitos, mas como dois astros em órbitas distintas, cujo toque só é possível através do mal-entendido (malentendu), do equívoco significante. Justamente porque o gozo do Outro é opaco, insondável, e não responde a nenhuma lógica universal — não há A mulher, diz Lacan, há mulheres, uma por uma, cada uma com seu modo de gozar. E o mesmo vale para os homens, ainda que o fantasma fálico lhes dê a ilusão de domínio.
O amor, então, surge como suplência, como uma invenção singular para dar forma ao impossível de dizer da sexualidade. "O amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer," Lacan também nos lembra — quer dizer, uma tentativa desesperada, poética, de bordar com palavras aquilo que não se escreve.
A invenção entra aqui como gesto ético e criativo: inventar modos de laço onde não há garantias simbólicas, encontrar saídas onde reina o impasse.
Na clínica, é isso que se testemunha: sujeitos tentando escrever um roteiro onde o script não existe, tropeçando na alteridade radical do Outro, mas às vezes, ainda assim, conseguindo amar, desejar, sustentar um laço, mesmo que precário, mesmo que atravessado pela castração.
O sintoma amoroso, o fantasma sexual, os pequenos objetos de gozo que se oferecem ou se recusam — tudo isso compõe o campo da invenção.
Porque se a relação sexual não existe, isso não nos condena ao niilismo, mas nos abre ao campo da criação. Cada encontro amoroso é um ato de linguagem, um tropeço fecundo, uma tentativa de escutar o silêncio do gozo do Outro sem tentar preenchê-lo com soluções prontas.
Amar, no ensino de Lacan, é sustentar o desencontro sem recuar dele.
E talvez, nisso, haja uma forma de política do desejo: não buscar completude, mas afirmar o intervalo — entre corpos, gozos, falas — como lugar onde algo novo pode advir. A invenção como resposta ao impossível. O desejo como bússola no deserto do real. E o sujeito, entre os escombros da não-relação, ainda tentando fazer laço com aquilo que lhe escapa.



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