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A Histeria como Denúncia

  • há 15 horas
  • 3 min de leitura


Quando Freud atendeu as histéricas em Viena, o sintoma delas — a paralisia, a tosse, a conversão — era uma forma de linguagem. O corpo, recusando-se a obedecer à norma vitoriana, "falava" aquilo que a consciência não podia admitir. Como vimos no Volume  (Estudos sobre a Histeria), o corpo da histérica era um campo de batalha onde a subjetividade tentava, através do sintoma, afirmar-se contra a domesticação burguesa. Hoje, a indústria da moda opera uma inversão da histeria.


Enquanto a histérica criava um sintoma para denunciar a norma, a indústria impõe o sintoma (a insatisfação, a busca pela magreza, a correção do "defeito") para garantir que o sujeito nunca se reconheça como tal.


O objetivo é, o apagamento do sujeito. O Superego do Capitalismo: "Goza!"


Em "O mal-estar na cultura" (Das Unbehagen in der Kultur), Freud explicou que a civilização exige renúncia pulsional. Contudo, o capitalismo neoliberal decadente, em sua vertente imperialista, alterou essa dinâmica. Ele não pede mais renúncia; ele exige gozo.


A frase citada por Margaret Thatcher - “a economia é o meio, o objeto é o espírito" (ironicamente uma mulher), ressoa com o conceito de que o capitalismo não quer apenas o seu dinheiro, ele quer a captura da sua Ich-Ideal (Ideal de Eu).


A moda dita um padrão de juventude eterna, de um corpo que não envelhece, que não sofre as marcas do tempo. Ao restringir cores, cortes e formas para a mulher madura, a indústria tenta realizar um recalcamento forçado da finitude.


A Dessexualização e o Corpo como "Coisa"


Nos "Três ensaios sobre sexualidade", Freud deixa claro que o corpo não se reduz à função reprodutiva nem à beleza estática. Ela é polimorfamente perversa, um fluxo que busca satisfação nas zonas erógenas e na fantasia. Quando a indústria retira as opções para a mulher com "mais curvas, mais seios", ela tenta reduzir o corpo feminino de um sujeito desejante a uma coisa (Sache) útil.


A Indústria tenta transformar o corpo numa mercadoria que deve ter uma "validade" (a juventude). Portanto quando a mulher aceita essa imposição, ocorre uma fratura: ela passa a olhar para o seu próprio corpo como um Outro estranho, alguém que precisa ser "consertado" ou "apertado" (como na sua referência à costureira e ao plus size).


O "Tudo ou Nada": A Falência da Subjetividade


A época do "tudo ou nada" é a época da perda da nuance simbólica. A neurose, na qual Freud se debruçou durante décadas, depende da ambiguidade, do chiste (Witz), do que fica entre as linhas.


A moda atual, ao tratar o corpo como um molde rígido, elimina o espaço para o Witz. Se o corpo é tudo ou nada, não há espaço para a fantasia e sem fantasia, o sujeito torna-se um autômato.


A "batalha" que denunciamos não é apenas política; ela é psíquica. O sistema quer que o corpo seja um objeto previsível, pois objetos não têm desejos, objetos não envelhecem (eles se tornam obsoletos).


Manter o rigor freudiano aqui significa reconhecer que, para a mulher, a libertação  que a revolução dos anos 60 prometeu — não virá através de um novo modelo de roupa imposto por uma nova tendência, mas através da recusa da moldura.


O sujeito, especialmente a mulher, precisa reivindicar o seu corpo como um território de investimento libidinal próprio, e não como um espaço de exposição para o olhar do Outro (o Mercado).


A psicanálise, portanto, continua sendo o local onde se pode "desfazer" a costura que a moda impõe, permitindo que o sujeito encontre sua própria forma, independentemente da idade ou da norma.

 

                                                                                               Costureiras do mundo, uni-vos!

 
 
 

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