A Clínica do Sujeito Neoliberal
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A clínica psicanalítica contemporânea enfrenta uma mutação sem precedentes na dinâmica da transferência, materializada na fragilidade do laço social e na prática recorrente do "ghosting" clínico. Este fenómeno, em que o sujeito irrompe na sessão, vomita um mal-estar imediato e desaparece sem dar continuidade ao processo, não deve ser interpretado apenas como um desvio comportamental ou uma falha de adaptação, mas como uma manifestação sintomática de uma subjetividade moldada pela lógica do "just-in-time" e pela Sociedade da Positividade.
Ao observarmos esta geração, percebemos que o celular e o computador deixaram de ser meros utensílios para se tornarem extensões protéticas do Ich (Ego).
O sujeito neoliberal, marcado pela ideologia do autoempreendedorismo, chega à análise não para realizar o Durcharbeitung — o laborioso trabalho de elaboração do recalcado —, mas para buscar uma espécie de "atualização" ou "patch" de funcionamento que lhe permita retomar a produtividade.
Quando o paciente não consegue desconectar-se da tela durante o atendimento, estamos perante uma Besetzung (investimento pulsional) que se recusa a abandonar o objeto tecnológico. A tela atua como o suporte que silencia a angústia, uma "solução" aprendida precocemente na infância, quando a presença humana foi substituída pela mediação do ecrã.
Por isso, quando o analista mantém o silêncio ou propõe uma intervenção que visa o inconsciente, o paciente sente-se invadido pelo vazio que tanto tenta evitar. No entanto, é fundamental acrescentar que o "ghosting" não é apenas uma manobra defensiva de fuga; ele deve ser lido, também, na chave do gozo lacaniano.
O ato de interromper abruptamente a análise, de "dar um ghost", constitui um modo de satisfação paradoxal, repetitivo e solitário. Ao cortar o laço com o analista, o sujeito captura uma centelha de gozo, um momento de mestria e autossuficiência onde ele se desvencilha da demanda do Outro.
Esse gozo, que se localiza aquém do desejo e da lei, é o que torna o "ghosting" tão viciante para o sujeito: ele prefere a satisfação imediata de sua própria alienação no objeto digital a suportar a opacidade da relação analítica e o confronto com a sua própria falta.
Paralelamente, a busca desenfreada por rótulos diagnósticos, como a "neurodivergência" ou o "autismo de suporte", opera como uma Verleugnung (renegação ou desmentido) de contornos modernos.
Filologicamente, enquanto o recalque (Verdrängung) esconde um desejo no inconsciente, a Verleugnung ataca a realidade psíquica, recusando-se a aceitar a complexidade do sujeito em favor de uma identidade estática e desresponsabilizada.
Ao adotar o diagnóstico como um escudo identitário, o sujeito tenta estancar a angústia da indeterminação, buscando uma "verdade" biológica que o dispense de confrontar a própria neurose.
É uma tentativa de tornar o psiquismo "corrigível" e, portanto, produtivo, integrando-se perfeitamente nas exigências da teologia da prosperidade e do capitalismo de desempenho.
O diagnóstico funciona, neste contexto, como um mecanismo que organiza esse gozo, conferindo-lhe um nome e um lugar num sistema de classificações que elimina a contingência do desejo.
Herbert Marcuse, em "Eros e Civilização", alertou-nos que a repressão na civilização moderna não se limita ao controle dos impulsos básicos, mas impõe uma Mehrunterdrückung (mais-repressão) necessária para a manutenção do sistema de dominação. Hoje, esta repressão é autogerida.
O sujeito neoliberal não é reprimido por um pai severo, mas exaurido pela exigência de positividade constante. Neste cenário, o lugar do psicanalista torna-se, paradoxalmente, o último bastião de resistência.
Ao sustentar o setting analítico, ao manter-se firme perante o "vomitar" de angústia e o posterior abandono, o analista representa o "estranho" (das Unheimliche) que não oferece respostas rápidas, nem "curas" imediatas, nem identificações superficiais.
Sustentar a transferência nestes moldes exige que não tentemos banir o objeto (o celular/a tela), mas que compreendamos que ele é a âncora de um sujeito que se sente à deriva.
A clínica, hoje, precisa de ser mais paciente do que o tempo frenético da rede exige. Se o sujeito nos oferece o sintoma do "ghosting", a nossa resposta deve ser a persistência em manter o espaço da palavra aberto, resistindo à tentação de converter a psicanálise num serviço de otimização humana.
O nosso rigor filológico e teórico serve, precisamente, para que não nos perdamos na mesma linguagem neoliberal que os nossos pacientes trazem, permitindo que a análise continue a ser o lugar onde o Trieb (pulsão) pode ser ouvido em sua verdade — para além da repetição do gozo — ainda que, por vezes, apenas através do silêncio de quem se vai embora.



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