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A Máscara da Normalidade: Estigma e Perversidade nos Novos Cordões da Inclusão

  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Na contemporaneidade, assistimos a uma sofisticada reconfiguração do que Erving Goffman chamou de identidade social. Se outrora o estigma era cravado na pele ou na classe, hoje ele é meticulosamente desenhado pelas mãos de uma psiquiatria que, deformada pela indústria farmacêutica, substituiu a escuta pelo instrumento de medição. Surgem, assim, os cordões da inclusão: uma nova e obscena forma de exclusão que, sob o pretexto de acolher, aprisiona o sujeito em sua própria subjetividade patologizada.


​1. A Patologização da Sensibilidade

​O que Goffman descreve como a discrepância entre a identidade social virtual (o que a sociedade espera) e a real (quem o sujeito é) tornou-se um mercado de diagnósticos. Os "normalopatas" da medicina ocidental — profissionais que performam uma normalidade técnica enquanto ignoram a dimensão humana — transformaram o sofrimento psíquico, o autismo e a fibromialgia em rótulos definitivos.


​Nesse cenário, os cordões da inclusão funcionam como laços que asfixiam: o indivíduo é "incluído" no círculo social, mas apenas na condição de paciente. Ele ganha o direito de existir, desde que carregue consigo o estigma do laudo, tornando-se um "desacreditado" que deve constante explicação ao mundo sobre sua funcionalidade.


​2. A Invisibilidade da Perversidade "Normal"

​O aspecto mais cruel dessa dinâmica é a proteção tácita aos sujeitos mais perigosos. Enquanto pessoas sensíveis são catalogadas e monitoradas, a psiquiatria normalopata muitas vezes silencia diante da perversidade de classe média. Jovens que agridem vulneráveis ou matam animais por prazer não raramente escapam do estigma por possuírem uma fachada de normalidade impecável.


​Para Goffman, esses indivíduos dominam a "arte de manipular a impressão". Eles possuem os atributos de prestígio que os mantêm no centro do cordão da inclusão. Sua violência não é lida como patologia, mas como um "desvio momentâneo" ou "excesso de juventude", pois eles não ameaçam a ordem estética da produtividade. Enquanto isso, aqueles que possuem sentimentos à flor da pele são precocemente estigmatizados, tendo suas trajetórias de vida limitadas por grades químicas e sociais.


​3. O Cordão como Algema: A Inversão do Olhar

​A conclusão é amarga: os cordões da inclusão não visam integrar a diferença, mas gerenciar o "anormal" para que ele não perturbe o trânsito dos perversos. Criou-se uma sociedade onde:


O Estigmatizado é aquele que sente demais e é punido com um diagnóstico que o reduz a uma categoria biológica.


​O Normalopata é o agente que valida essa exclusão, operando uma ciência que identifica a dor, mas é cega para a crueldade.


​A inclusão moderna, portanto, opera como uma instituição total invisível. Ela não precisa de muros de manicômio; ela utiliza laços de diagnóstico e etiquetas de subjetividade para garantir que os "anormais" permaneçam sob controle, enquanto a verdadeira patologia social — a perversidade dos integrados — transita livremente, protegida pela mesma ciência que deveria denunciá-la.


 
 
 

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