Jacques-Alain Miller e o niilismo burguês
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A refundação do laço social e a superação da fratura civilizatória imposta pela acumulação capitalista exigem uma mediação dialética entre a subjetividade em sofrimento e a objetividade histórica. Esse movimento representa a transição da consciência em si — o sofrimento atomizado da carne explorada, vivido na solidão do divã ou no isolamento do quarto — para a consciência para si, quando o sujeito assume sua condição de agente histórico.
A tarefa ético-política não é promover uma cura adaptativa, mas reconectar o sujeito ao laço de pertencimento de classe. Trata-se de um sujeito que, ao resgatar sua autonomia relativa e articular sua própria verdade pelo corte enigmático do desejo, suspende o solipsismo e reconhece que sua singularidade é determinada por uma totalidade social concreta. Ele pertence a uma classe e, portanto, deve colocar o desejo em cena na esfera pública.
O sintoma contemporâneo expressa o esmagamento do corpo do sujeito pelas engrenagens do capital — uma somatização da reificação (Verdinglichung) descrita por Lukács. Para não se tornar fetiche, o desejo precisa ser tensionado como desejo de reencontro com o Outro, como práxis transformadora.
A psicanálise contemporânea não pode capitular diante do niilismo clínico que emerge de certas derivas da orientação de Jacques-Alain Miller.
Ao reduzir os movimentos coletivos de emancipação dos trabalhadores a “alienações de massa” ou “ilusões neuróticas”, essa vertente incorre em um psicologismo que despolitiza o sofrimento. Não se pode rebaixar o desejo de transformação real na realidade social à categoria de “delírio coletivo” ou “metáfora delirante”, como sugerem algumas leituras da psicose ordinária.
Quando a teorização milleriana subsume o laço político e a consciência de classe às estruturas delirantes, ela encapsula a clínica em um gozo autista, condenando o sujeito ao isolamento e à repetição eterna do sintoma.
A implicação ideológica é clara: a pressuposição de que a realidade socioeconômica é inamovível e de que “tudo está dominado”. Essa postura atua como vetor de conformismo e apaziguamento político.
Ao igualar a tomada de consciência de classe e a organização coletiva a um mecanismo de compensação delirante, Miller realiza uma concessão ideológica grave. Instala-se o cinismo da “loucura para todos”, tradução clínica do aforismo lacaniano “Todo o mundo é louco, isto é, delirante”. O que era uma indicação estrutural sobre a inexistência de um Outro absoluto transforma-se, na vulgata milleriana, em anestesia da práxis e apagamento da causa histórica.
Se o sofrimento do motorista de aplicativo e o do banqueiro bilionário são nivelados no mesmo plano abstrato da “loucura generalizada”, a determinação material do modo de produção capitalista é convenientemente eclipsada. O niilismo torna-se, assim, o destino inescapável do sujeito contemporâneo.
Ao rotular a solidariedade, a luta de classes e o impulso revolucionário como expedientes “delirantes”, a vertente milleriana esvazia a eficácia política do ato freudiano e do ato político. O horizonte dessa clínica do capitalismo tardio é a solidão abstrata e o conformismo eterno: resta ao sujeito administrar seu pequeno gozo privado, consumir psicofármacos e aceitar que o capital triunfou sobre a história.
Trata-se, em última instância, do “realismo capitalista” de Mark Fisher, vertido perversamente para o jargão lacaniano. O desejo é despolitizado e transformado em mercadoria psíquica de circulação interna, alienando a psicanálise de sua potência crítica original — aquela que Freud formulou em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), ao dissolver a barreira entre psicologia individual e psicologia social.



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