Acting-out e Passagem ao Ato: Uma Perspectiva Lacaniana
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Para que se logre compreender os conceitos de acting-out e passagem ao ato, cumpre-nos, inicialmente, discorrer sobre a separação.
Segundo Lacan, a separação não se reduz ao mero desligamento físico da figura materna, mas constitui uma operação lógica e estrutural do sujeito em relação ao objeto $a$.
Nessa acepção, o objeto $a$ define-se como um resíduo.
Lacan assevera que a causa do desejo não é algo que o sujeito perde no mundo fenomênico, mas sim um remanescente que se desprende do próprio corpo durante o processo de constituição subjetiva.
O autor estabelece uma analogia com o embrião: tal como o córion e o âmnio são tecidos pertencentes ao feto, e não à mãe, o objeto $a$ é um fragmento do estofo do próprio sujeito que se destaca.
A topologia do cross-cap ilustra que o sujeito barrado ($\$$) e o objeto $a$ são feitos da mesma substância.
O corte no cross-cap é o que engendra a distinção entre o que o sujeito é (ser desejante) e o que ele precisou abdicar para existir (o objeto $a$).
A angústia, por conseguinte, irrompe sempre que esse objeto se aproxima excessivamente do sujeito. Ante uma falha nesse corte simbólico, a angústia emerge, fazendo com que o objeto $a$ "reapareça" no lugar onde deveria haver apenas o vazio.
Neste cenário, o sujeito pode sinalizar ao analista o reaparecimento desse fragmento de si por meio de duas vias distintas:
I. O Acting-out
O acting-out configura-se como uma encenação mobilizada pelo paciente quando este carece de recursos verbais ou de uma escuta que acolha seu sofrimento.
Lacan descreve tal fenômeno como um espetáculo erigido pela incapacidade de verbalizar o mal-estar. Diferentemente de um ato isolado, esta cena é endereçada ao Outro; constitui um apelo para que o analista interprete aquilo que o sujeito não logra dizer.
Dotado de estrutura simbólica, conquanto cifrada, o acting-out denota uma falta impronunciável no momento. Ele denuncia uma "transferência quente", acusando o analista de surdez diante de um sofrimento cujos recursos de nomeação já se exauriram.
II. A Passagem ao Ato (Passage à l'acte)
Em contrapartida, a passagem ao ato caracteriza-se pelo momento em que o sujeito retira-se da cena.
Divergindo do espetáculo contido no acting-out, aqui opera-se uma ruptura radical — como se observa na tentativa de suicídio.
Tal evento implica o desligamento do sujeito do campo do Outro; ao identificar-se integralmente com o objeto caído ($a$), ele abdica de sua existência enquanto sujeito na cena simbólica.



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