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A Imprecisão Teórica no Conceito de Narcisismo

  • 29 de abr.
  • 4 min de leitura








O conceito de narcisismo ocupa um lugar central na metapsicologia psicanalítica. Originalmente, o termo foi empregado por Paul Näcke, em 1899, para descrever uma perversão na qual o indivíduo trata o próprio corpo como se este fosse um objeto sexual.


Contudo, com o amadurecimento de sua obra — culminando no ensaio de 1914 —, Freud expande essa definição, integrando o narcisismo à própria constituição do Eu (Ego).


Essa virada teórica ocorreu quando Freud observou que traços narcisistas não eram exclusivos das perversões, mas estavam presentes em diversos quadros clínicos e no desenvolvimento humano até então considerado "normal".


Assim, o narcisismo deixa de ser compreendido meramente como uma patologia e passa a ser visto como uma etapa necessária do desenvolvimento libidinal. Nesse sentido, vincula-se à pulsão de autoconservação e à economia da libido, revelando-se um componente estruturante presente, em algum grau, em todos os seres vivos.


Freud estabelece uma distinção fundamental: o narcisismo primário e o narcisismo secundário.


O primeiro refere-se a um estado precoce e objetal, no qual a criança concentra toda a libido em si mesma — o que Freud designou como "His Majesty the Baby" (Sua Majestade, o Bebê).


A transição para a maturidade psíquica exige que parte dessa libido seja direcionada ao mundo externo, investindo em objetos (pessoas, causas, ideais).


Já o narcisismo secundário surge quando, por meio de frustrações ou traumas, essa libido é retirada dos objetos e reflui sobre o Eu.


É nesse ponto que reside a distinção crucial entre o funcionamento estrutural e a patologia, hoje obscurecida pelo senso comum.


Atualmente, o termo sofreu deformações tanto pela taxonomia descritiva do DSM quanto pelo uso equivocado de "pseudopsicanalistas" em plataformas digitais. Nessas esferas, o conceito é frequentemente reduzido a um adjetivo para descrever indivíduos vaidosos, egoístas ou inerentemente "maus".


O que se observa é uma leitura moralizante e conservadora sobre uma etapa fundamental e fundante da subjetividade.


Na clínica psicanalítica, o narcisismo diz respeito à integridade e à sustentação do Eu. O sofrimento narcisista não se resume à arrogância; ele denuncia um sentimento de si tão frágil que demanda mecanismos de defesa rígidos para evitar a desintegração psíquica.


A análise de Freud sobre o narcisismo revela que a psique funciona como um sistema de vasos comunicantes: quanto mais libido é investida no Eu (Libido Narcísica), menos resta para os Objetos (Libido Objetal), e vice-versa. Essa distribuição é o que molda as diferentes estruturas:

 

Nas Neuroses (Histeria e Neurose Obsessiva)


Nas neuroses, a capacidade de investir em objetos externos (pessoas, projetos, realidade) é mantida, mas esses investimentos são permeados pelo conflito e pelo recalque.


Histeria: A libido é investida no corpo (zona erógena simbólica) ou em objetos externos de forma idealizada.


Neurose Obsessiva: A libido reflui para o pensamento e para formações reativas, mas o sujeito ainda reconhece a realidade externa como separada de si.


Nas Psicoses (Esquizofrenia e Paranoia) - É aqui que o conceito de narcisismo é crucial para Freud. Nas "neuroses narcísicas" (como ele chamava as psicoses na época), ocorre um desinvestimento massivo da realidade externa. A libido retorna inteiramente para o Eu.


Na Esquizofrenia: Esse retorno produz o delírio de grandeza (megalomania) ou o desinteresse total pelo mundo. Como não há libido ligada aos objetos externos, o sujeito "reconstrói" o mundo através de alucinações e delírios (objetos imaginários e internos) para tentar lidar com a inundação de energia no Eu.

 

Nas Perversões


Nas perversões, a dinâmica do narcisismo ganha um contorno inusitado e fascinante, isto porque ela não se caracteriza nem pelo recalque (como na neurose), nem pelo desinvestimento total da realidade (como na psicose).


O mecanismo central aqui é a renegação (Verleugnung). Para Freud, a perversão é o "negativo da neurose".


No que diz respeito ao investimento libidinal, podemos estruturar da seguinte forma:


O Fetiche como Objeto de Investimento: Diferente do neurótico, que investe em uma pessoa (objeto total), o perverso muitas vezes desloca sua libido para um objeto parcial ou um fetiche. Esse fetiche é um substituto imaginário que serve para negar uma "falta" na realidade (especificamente, a castração na teoria freudiana).


O Eu Idealizado e a Vontade de Gozo: No narcisismo perverso, o Eu não está fragilizado como na psicose, mas sim "inflado" por uma recusa em aceitar a lei ou o limite imposto pelo Outro. O perverso se coloca em uma posição de quem detém o saber sobre o gozo, tratando o outro não como um sujeito, mas como um instrumento (objeto) para sua satisfação.


A Fixação da Libido: Enquanto o desenvolvimento esperado é que a libido narcísica evolua para a libido objetal (amar o outro), na perversão há uma fixação. O sujeito investe no objeto apenas enquanto este espelha ou serve ao seu próprio prazer. É um movimento circular: o investimento no objeto ocorre para que este devolva o prazer máximo, mantendo o controle narcísico sobre a cena.


Portanto, chegamos à conclusão de que classificar um sujeito como "narcisista" no senso comum nada mais é do que uma moralização de comportamentos sociais que escapam à lógica "normalopata" da sociedade unidimensional do capitalismo neoliberal.


Vivemos em um cenário em que toda conduta não adaptável ou desagradável é rapidamente reduzida a um "diagnóstico de aluguel", proferido por indivíduos com interesses financeiros que transformaram a psicanálise em um mero meio de vida, esvaziando-a de sua potência subversiva e clínica.

 

 
 
 

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