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O Analista Diante do Narcisismo das Cinzas: A Identificação com o Objeto Abjeto

  • Foto do escritor: Ana Celeste Alves Casulo
    Ana Celeste Alves Casulo
  • há 3 dias
  • 3 min de leitura

Na clínica contemporânea, deparamo-nos com uma configuração de resistência que desafia os limites do manejo transferencial clássico. Se, como propôs Lacan, "a resistência é do analista", somos forçados a questionar qual lugar estamos ocupando quando o paciente se apresenta sob uma couraça que parece menos uma defesa neurótica e mais um mimetismo do fim do mundo.

1. A Metonímia do Colapso

O paciente que nos procura hoje não traz apenas o conflito edípico ou a angústia de castração; ele traz o peso de uma civilização em falência. Diante da ameaça da terceira guerra mundial e do colapso ecossistêmico, o sujeito opera uma manobra psíquica radical: ele deixa de sofrer pelo mundo para se tornar o representante desse mundo em ruínas. É o que podemos chamar de identificação com o objeto abjeto.

Em Trauer und Melancholie (1917), Freud descreveu que na melancolia "a sombra do objeto caiu sobre o ego". No cenário atual, o objeto perdido é o próprio Grande Outro — a natureza provedora, a paz social, a promessa de futuro.

"Der Schatten des Objekts fiel so auf das Ich, welches nun von einer besonderen Instanz wie ein Objekt, wie das verlassene Objekt, beurteilt wurde."("A sombra do objeto caiu assim sobre o eu, que passou a ser julgado por uma instância especial como um objeto, como o objeto abandonado.")— FREUD, Sigmund. Das Unbehagen in der Kultur. Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 1930.

Ao se colocar na posição de um "objeto mau", o paciente não busca a cura, mas o testemunho de sua própria autópsia viva. Ele encarna a Todestrieb (pulsão de morte) para não ser aniquilado por ela; ele se torna o deserto para não sentir sede.

2. A Defesa Inquebrável e o Gozo do Desastre

Essa "defesa inquebrável" mencionada em nossa interlocução revela-se como um Narcisismo das Cinzas. Há um gozo paradoxal em ser o porta-voz do apocalipse. Ao apontar o fracasso do analista, o sujeito está, na verdade, realizando uma demonstração de poder: a de que nem mesmo a psicanálise — esta última reserva da palavra — pode salvá-lo de uma realidade que já se desintegrou.

Aqui, o acolhimento empático falha porque o paciente o devora como uma prova de ingenuidade do analista. Se o analista tenta ser o "objeto bom" frente a um sujeito que se identifica com o "lixo civilizatório", a clivagem se acirra. O paciente demanda que o analista admita não apenas sua falha técnica, mas a falha ontológica da própria humanidade.

3. A Clínica como Testemunho do Irremediável

Se o sujeito vem à análise para apontar o fracasso da civilização, a tarefa clínica desloca-se da interpretação para o manejo do Real. Sándor Ferenczi nos ensinou que, em situações de trauma profundo, o analista deve ser capaz de sobreviver à destrutividade do paciente sem se refugiar em uma neutralidade asséptica que negue a realidade da dor.

Lacan, no Seminário 7, nos lembra que o desejo é o que resta quando o Outro falha. A resistência inquebrável é o grito de quem percebeu que o lugar da palavra (le lieu de la parole) está sob escombros.

"Ce que j'appelle l'Autre, c'est le lieu de la parole — non pas l'autre comme semblable, mais l'Autre comme altérité radicale."("O que chamo de Outro é o lugar da palavra — não o outro como semelhante, mas o Outro como alteridade radical.")— LACAN, Jacques. Le Séminaire, Livre II. Éditions du Seuil, 1978.

O desafio do analista contemporâneo é habitar esse "não-lugar" com o paciente. Não para convencê-lo de que o mundo é bom, mas para investigar o que ele, como sujeito singular, faz com o que restou. A análise torna-se, assim, não uma busca por adaptação a um mundo doente, mas a tentativa de sustentar um desejo que não se curve, nem mesmo diante do fim.

 
 
 

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