A "Injunção ao Gozo"
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Em uma sociedade tradicional (época de Freud), o Supereu dizia: "Você não pode (ter prazer sexual)". O recalque era a resposta a essa proibição. Numa sociedade "libertina", o imperativo muda. O Supereu passa a dizer: "Você TEM que ter prazer" ou "Você deve ser sexualmente bem-sucedido".
Nesse cenário, o recalque não desaparece, ele muda de objeto:
O que é recalcado agora? O que se torna "proibido" ou "vergonhoso" não é mais o sexo, mas a falta de desejo, a impotência, o desejo de castidade ou a ternura sem sexo.
Em alemão, Freud usa o termo Triebverzicht (renúncia pulsional) como base da cultura. Numa sociedade libertina, a "renúncia" torna-se o novo tabu.
2. A "Dessublimação Repressiva" (Marcuse)
O filósofo Herbert Marcuse, lendo Freud, criou o conceito de dessublimação repressiva. Ele argumenta que, quando a sociedade incentiva a sexualidade de forma comercial e superficial, ela não está libertando o indivíduo. Pelo contrário:
Ela usa a energia sexual para manter as pessoas presas ao consumo.
O "incentivo libertino" funciona como uma nova forma de controle social. O indivíduo que não "performar" sexualmente sente uma culpa tão profunda quanto o histérico da era vitoriana sentia por ter desejos.
3. A Criação de Novos "Repressores"
Você tem razão ao dizer que isso "criou os repressores". Na psicanálise, o excesso de estímulo pode ser vivido pelo aparelho psíquico como um trauma (invasão de energia sem filtro).
Quando não há um "limite" externo (lei social), o indivíduo muitas vezes precisa criar mecanismos de defesa mais rígidos internamente para não ser inundado pela ansiedade.
É por isso que vemos hoje um aumento de sintomas de apatia, desinteresse sexual ou ansiedade de performance: são as novas formas de "repressão" que o psiquismo usa para se proteger de uma liberdade que ele não consegue processar.
4. Filologia: O "Unheimlich" (O Infamiliar)
Freud descreveu o conceito de Unheimlich (traduzido como "o inquietante" ou "infamiliar"). É algo que deveria ter permanecido oculto, mas veio à luz. Numa sociedade onde tudo é exposto e o sexo é obrigatório, o sexo perde seu caráter de "intimidade" (Heimlich) e torna-se Unheimlich. O excesso de luz (exposição) cega tanto quanto a escuridão (proibição).
Em resumo: sob a ótica da evolução da psicanálise. O recalque não depende da proibição em si, mas do conflito. Se a sociedade obriga a liberdade, o conflito passa a ser o desejo de intimidade ou de limite. O "Real" da morte e do sexo continua lá, mas agora escondido sob uma camada de "exposição obrigatória".
Como Freud diria em O Mal-Estar na Cultura: o preço que pagamos pelo progresso cultural (mesmo o da "liberdade") é sempre um sentimento de culpa ou um mal-estar indefinido. Contudo a culpa interior é redirecionado sob a forma de ódio e a pulsão de morte se torna a forma de funcionamento de uma sociedade.



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