Considerações sobre Kant com Sade
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Em Kant com Sade, Lacan desmascara a "neutralidade" do imperativo categórico do alem do principio do prazer. Para Kant, a lei moral deve ser despojada de qualquer patologia (desejos, inclinações, prazeres). No entanto, Lacan observa que essa pureza absoluta é, em si mesma, monstruosa.
Ao elevar a lei acima de qualquer contingência humana, Kant cria uma "barra" que não é apenas protetora (como o Nome-do-Pai que organiza o desejo), mas uma instância que exige um sacrifício total. É aqui que entra o "Para além do princípio do prazer": a voz da consciência (o Supereu) não quer que você seja "bonzinho", ela se nutre do seu sacrifício. Quanto mais você obedece à lei, mais culpado se sente, e mais a lei exige. Essa é a face obscena e maligna: a lei moral funciona como um motor de gozo ($Jouissance$).
"Das ist die Wahrheit des Kantischen Imperativs: die Stimme des Gewissens ist die Stimme des bösartigen Über-Ichs" (Esta é a verdade do imperativo kantiano: a voz da consciência é a voz do Supereu maligno).
O Objeto Causa do Desejo ($a$)
Agora, respondendo diretamente à lógica da "noiva reduzida à função" se aplica ao objeto causa do desejo? Sim e não, dependendo de como olhamos para a "falta".
A Noiva como Ideal (Simbólico): Se a noiva é reduzida à função, ela é um ideal de perfeição. Ela preenche o vazio. Se ela falta, o castelo cai.
A Noiva como Objeto $a$ (Real): O objeto $a$ não é o que a noiva é (sua função, sua beleza, sua fidelidade), mas aquilo que nela causa o desejo no noivo. O objeto $a$ é justamente o "algo mais" (ou o "algo a menos") que escapa à função.
Diferente da noiva funcional de Žižek, o objeto causa do desejo funciona pela falta. Enquanto a noiva-função "não pode faltar" para continuar sendo noiva, o objeto $a$ só existe porque algo falta. O desejo não quer a noiva perfeita; o desejo se engancha no detalhe obsceno, no brilho do olhar que não faz sentido, no resto que sobra quando a função é cumprida.
Conclusão: Kant, Sade e o Objeto $a$
Kant tentou fazer da moral um objeto puro, sem "patologia". Lacan mostra que, ao fazer isso, Kant transformou a lei no próprio objeto $a$ de um Deus perverso (Sade). Se a noiva é apenas "função de noiva", ela se torna um objeto inanimado, uma engrenagem na lei moral.
O objeto causa do desejo é o que fura essa neutralidade kantiana. Ele é o ponto de "maldade" ou "obscenidade" que Žižek nós ensinou: é o que resta de humano e pulsional quando todas as leis e funções falham. Portanto, enquanto a "noiva funcional" de Žižek é o triunfo do Simbólico (o Nome-do-Pai como barra), o objeto $a$ é o que cai dessa barra, o resíduo de gozo que a lei não consegue domesticar.
"Le désir, ce qui s'appelle le désir, suffit à faire que la vie n'ait pas de sens à y produire un lâche" (O desejo, o que se chama desejo, basta para fazer com que a vida não tenha sentido ao produzir um covarde) — LACAN, J. Le Séminaire, Livre VII: L'Éthique de la psychanalyse.






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