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Zé do Caixão: O Retrato de São Paulo

  • 17 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 31 de jan.










Enquanto isso no chamonix, A classe média mariliense ajoelha no domingo, faz o sinal da cruz com a mão direita — enquanto a esquerda apalpa a caixa de doações. Reza pelo pobre abstrato, distante, higienizado… mas entra em pânico diante do pobre real, de carne, osso e cheiro.


Constrói condomínios que parecem campos de concentração gourmet: cercas, câmeras, biometria, reconhecimento facial — não para impedir o roubo deles, mas para garantir que o miserável não atravesse o portão e manche a paisagem. O pobre pode existir, desde que não apareça. Desde que fique do lado de fora. Desde que seja invisível.


Pagam jagunços uniformizados, chamados de “segurança”, para expulsar a miséria da calçada. Mas quando a solidariedade aparece em forma de caixa de alimentos, o saque vem de dentro. Não é o faminto da rua que rouba — é o morador de garagem coberta, financiamento em dia e consciência em atraso.


É o católico hipócrita que se confessa de pecados imaginários, mas naturaliza o roubo real.

É o fiel que fala de caridade, mas pratica pilhagem moral.

É o cidadão “de bem” que chama o furto de “engano”, desde que seja o seu.


Tem medo de ser roubado pelos pobres, mas rouba dos pobres com a tranquilidade de quem se sente autorizado por Deus, pelo síndico e pelo CNPJ. E quando é pego, não devolve por ética — devolve por medo da câmera. Não é arrependimento: é cálculo.


Zé do Caixão riria.

Riria dessa gente que teme o inferno, mas vive como se já estivesse nele — achando que dinheiro, muros e câmeras compram absolvição.


Porque no fundo, o verdadeiro horror não está no pobre que pede.

Está no respeitável ladrão que se benze depois de roubar.


E este, meus caros, não precisa de reconhecimento facial.

Ele se reconhece no espelho — e mesmo assim dorme em paz.

 
 
 

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