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“Eles não sabem que estamos lhes trazendo a peste”: Freud, Inconsciente, Pulsões e Crítica do Metabolismo Social.

  • Foto do escritor: Ana Celeste Alves Casulo
    Ana Celeste Alves Casulo
  • há 9 horas
  • 8 min de leitura

 

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A psicanálise é uma ciência que possui um método de investigação do inconsciente, denominado associação livre, criado pelo médico austríaco Sigmund Freud (Sigismund Schlomo Freud, nascido em Freiberg, na Morávia, em 6 de maio de 1856, e falecido em Londres, em 23 de setembro de 1939). Freud foi neurologista e o fundador da psicanálise, sendo uma das personalidades mais influentes na história da psicologia. Ele foi influenciado por Charles Darwin, cujas ideias inspiraram a escrita de textos como "O Mal-Estar na Civilização" e "Totem e Tabu", entre outros trabalhos de cunho social. Além disso, recebeu influência de Jean-Martin Charcot e de seus estudos sobre o tratamento das histéricas, assim como de Josef Breuer, com quem colaborou na obra "Estudos sobre a Histeria". Esse método permitiu a formulação de uma teoria psicológica desenvolvida por Freud entre o final do século XIX e o início do século XX.

A psicanálise busca compreender o funcionamento da psique humana, enfatizando a importância do inconsciente, dos desejos reprimidos e das experiências passadas e recalcadas na formação da personalidade e do caráter dos indivíduos. A construção do inconsciente está intimamente ligada aos aspectos culturais de cada civilização. Freud já havia constatado que a civilização cobra um preço, pois implica a renúncia aos instintos ancestrais, comuns ao homem e aos demais primatas. A proibição do incesto, do canibalismo e do assassinato tornou-se um dos pilares da civilização, uma vez que foi por meio da cooperação, e não da competição, que os primeiros hominídeos se distinguiram das demais espécies de primatas, em uma espécie de mitologia darwiniana. Contudo, dentre os tabus da civilização, interessa-nos especialmente o tabu do incesto, pois foi graças a ele que o Homo sapiens pôde gerar descendentes mais fortes e capazes de sobreviver. Sobre o impedimento do incesto como pacto civilizatório, Freud afirma:

 

"[...] a proibição do incesto e a restrição aos anos de desenvolvimento após a puberdade podem ser encontradas em quase todos os homens civilizados; seria justificada a expectativa de que a impotência psíquica fosse um sofrimento cultural geral e não a doença de apenas alguns." (Freud, 1933, p. 143).

A partir de seu método, Freud descobriu que, no âmago do inconsciente, residem todas as facetas da agressividade, da sexualidade incestuosa e das pulsões reprimidas pela moral burguesa. Compreendemos o sujeito como impulsionado, principalmente, por forças obscuras, denominadas pulsões, que influenciam tanto atos destrutivos quanto construtivos, em uma eterna luta entre vida e morte. Essas forças estão entrelaçadas com a cultura, a família e a busca do sujeito por um lugar no mundo. A interação entre essas forças universais e particulares molda a experiência subjetiva de cada indivíduo neste sentido Sabina Spielrein diz

A pulsão de procriação esconde, ao lado dos sentimentos positivos que são esperados, que nos neuróticos esconde uma postura negativa. A criação repressiva cria uma situação que faz com que na infância o sexo seja associado à morte de modo que eles levam isso.  Otto Gross associa esse sentimento de repulsa aos produtos sexuais ao sentimento de aversão diante dos produtos sexuais á coexistência espacial com as excreções mortas enquanto Freud atribui às resistências e, a angustia ao recalque dos desejos que normalmente deveriam está associado a afetos positivos, contudo o neurótico não o consegue fazer essa associação ( Spielrein, 257, 2021)

Com todos esses achados sobre o inconsciente, no ano de 1909, quando Freud e Carl Jung chegaram aos Estados Unidos para uma série de palestras na Clark University, reza a lenda que Freud teria dito a Jung: "Eles não sabem que estamos lhes trazendo a peste" (em alemão: "Sie wissen nicht, dass wir ihnen die Pest bringen")[1]. Ele se referia à psicanálise, que sabia revolucionaria o estudo da mente humana e desafiaria normas e crenças conservadoras, algumas das quais ainda persistem até hoje.

A psicanálise, enquanto instrumento de investigação do inconsciente, lança luz sobre a hipocrisia social, desvelando a sociedade de sua suposta pureza. Para Freud, não existe o "bom selvagem"; o homem herda a violência e as tendências autodestrutivas de seus antepassados animais, e a civilização desempenha um papel crucial na repressão dessa violência ancestral.

Para além da anatomia, o sujeito é sempre o resultado de uma série de escolhas que o situam em uma estrutura clínica, em um modo específico de amar e gozar, determinando também o caminho em direção à morte. Como disse Heráclito, citado por Lacan (1964, p. 168): "Ao arco é dado o nome da vida [...] e sua morte". A pulsão inaugura a sexualidade no ser vivo, situando-o na encruzilhada de duas forças antagônicas: a pulsão de vida e a pulsão de morte (Miranda, 2017, p. 48).

Lacan desenvolveu as lacunas deixadas por Freud e reatualizou, na medida do possível, a teoria psicanalítica. Ele foi influenciado na filosofia por Jean Hyppolite, Alexandre Kojève e Hegel. Posteriormente, Martin Heidegger também contribuiu para o desenvolvimento de sua teoria das pulsões e do inconsciente, embora eu considere os pós-modernos uma influência questionável, devido ao seu irracionalismo, é importante contextualizar essa crítica. O pós-modernismo, emergido no século XX como uma reação ao modernismo e às grandes narrativas da razão, da ciência e do progresso, caracteriza-se por uma desconfiança em relação às verdades universais e uma ênfase na fragmentação, na pluralidade de perspectivas e na relativização dos discursos. Autores como Michel Foucault, Jacques Derrida e Jean-François Lyotard questionaram as estruturas de poder, a linguagem e a própria noção de sujeito, propondo uma visão descentralizada e desconstruída da realidade.

 

 

 

No entanto, essa abordagem, embora valiosa para criticar dogmas e hierarquias, muitas vezes cai em um relativismo excessivo, negando a possibilidade de qualquer fundamento objetivo ou universal. Para a psicanálise, em particular, essa tendência pode ser problemática, pois o pós-modernismo tende a desvalorizar a noção de inconsciente estruturado e a importância das pulsões, conceitos centrais para Freud e Lacan. Além disso, ao apostar no irracionalismo e na desconstrução de todas as metanarrativas, o pós-modernismo pode levar a uma certa desorientação teórica, na qual não há critérios claros para distinguir entre interpretações válidas e inválidas, ou entre avanços científicos e meras especulações.

Essa crítica não significa desconsiderar as contribuições do pós-modernismo, como sua capacidade de questionar estruturas opressivas e ampliar o debate sobre a diversidade de experiências humanas. No entanto, no contexto da psicanálise, acredito que o pós-modernismo representa um risco quando sua ênfase no relativismo e na fragmentação obscurece a busca por uma compreensão mais profunda e universal da psique humana. István Mészáros, filósofo marxista húngaro, faz uma crítica contundente ao pós-modernismo, entendendo-o como uma forma de contra-revolução intelectual que surgiu em um contexto histórico específico: o declínio das utopias socialistas e o avanço do neoliberalismo a partir da segunda metade do século XX. Para Mészáros, o pós-modernismo não é apenas uma corrente filosófica ou cultural, mas uma expressão ideológica que serve aos interesses do capitalismo globalizado, desmobilizando a luta por transformações sociais profundas. Com a pós-modernidade eu destaco três pontos problemáticos:

Mészáros critica o pós-modernismo por sua rejeição às grandes narrativas (como o marxismo e outras teorias que buscam explicar a totalidade da sociedade). Autores pós-modernos, como Jean-François Lyotard, argumentam que as grandes narrativas estão ultrapassadas e que devemos nos concentrar em narrativas locais e fragmentadas. Para Mészáros, essa postura é uma forma de desistência política, pois nega a possibilidade de transformações estruturais e de uma visão global da sociedade. Ao abandonar a ideia de uma luta coletiva por mudanças radicais, o pós-modernismo acaba reforçando o status quo capitalista.

O pós-modernismo é marcado por um relativismo epistemológico, que questiona a existência de verdades objetivas e universais. Para Mészáros, essa postura é profundamente problemática, pois desarma a crítica ao sistema capitalista. Se não há verdades objetivas ou critérios para avaliar a realidade, como podemos denunciar as injustiças e desigualdades do capitalismo? O relativismo pós-moderno, segundo ele, serve para neutralizar a crítica radical e para justificar a ideia de que não há alternativa ao capitalismo.

Mészáros critica o pós-modernismo por sua ênfase na fragmentação e no individualismo. Ao celebrar a diversidade de identidades e experiências sem conectá-las a uma análise estrutural da sociedade, o pós-modernismo acaba despolitizando as lutas sociais. Para ele, essa fragmentação é funcional ao capitalismo, pois divide os movimentos sociais e os afasta de uma luta unificada contra o sistema. Em vez de buscar a emancipação coletiva, o pós-modernismo promove uma visão atomizada da sociedade, na qual cada grupo ou indivíduo luta por seus próprios interesses, sem questionar as estruturas de poder que os oprimem.

Outro aspecto da crítica de Mészáros é a forma como o pós-modernismo despolitiza a cultura e a teoria. Ao focar em questões linguísticas, estéticas e identitárias, sem conectá-las a uma análise materialista da sociedade, o pós-modernismo acaba se tornando uma forma de escapismo intelectual. Para Mészáros, essa despolitização é uma forma de contra-revolução, pois desvia a atenção dos problemas reais (como a exploração econômica e a dominação de classe) e transforma a teoria em um jogo de palavras, sem impacto prático na transformação da sociedade.

O pós-modernismo serviu para naturalizar o capitalismo, apresentando-o como o único sistema possível e desacreditando qualquer alternativa radical. Para ele, o pós-modernismo é uma forma de resignação intelectual, que aceita o capitalismo como um fato inevitável e desencoraja a luta por uma sociedade mais justa e igualitária.

Mészáros critíca o pós-modernismo por abandonar a dialética e a noção de totalidade, conceitos centrais no pensamento marxista. Para ele, a dialética é essencial para entender as contradições do capitalismo e para pensar em alternativas sistêmicas. O pós-modernismo, ao rejeitar a dialética e fragmentar a realidade em micro-narrativas, perde a capacidade de compreender a sociedade como um todo e de apontar caminhos para sua transformação radical. Por fim segundoa István Mészáros, o pós-modernismo não é apenas uma corrente teórica ou cultural, mas uma ferramenta ideológica que serve aos interesses do capitalismo. Ao desmobilizar a luta por mudanças estruturais, ao relativizar a verdade e ao fragmentar as lutas sociais, o pós-modernismo atua como uma forma de contrarrevolução, impedindo a construção de alternativas ao sistema capitalista. Sua crítica é, portanto, uma chamada para retomar o projeto de emancipação humana, baseado em uma análise materialista e dialética da realidade. Entretanto, Lacan, ainda que se mantenha vinculado a certas influências da pós-modernidade, dá continuidade ao desenvolvimento da psicanálise da seguinte forma: inicialmente, ele se inspirou na lógica hegeliana com o objetivo de compreender o movimento do inconsciente, entendido como uma lacuna entre aquilo que o sujeito é e aquilo que ele pode vir a ser. Sob a influência de linguistas como Ferdinand de Saussure e Roman Jakobson, bem como do antropólogo Claude Lévi-Strauss, Lacan desenvolveu suas ideias no campo da linguística.

Na perspectiva topológica, Lacan foi influenciado pelas ideias da teoria dos conjuntos de Georg Cantor, que introduziu conceitos sobre a infinidade e as relações entre conjuntos. Já Bertrand Russell formulou seu famoso paradoxo em 1901, demonstrando uma contradição na teoria dos conjuntos, que se refere à coleção de todos os conjuntos que não se contêm. Isso ajudou Lacan a refletir sobre como o sujeito se constitui no espaço simbólico. O paradoxo de Russell passou a influenciar sua topologia.

Em termos simples, se considerarmos o conjunto de todos os conjuntos que não são membros de si mesmos, surge a pergunta: esse conjunto é membro de si mesmo? Se for, então não deveria ser; se não for, então deveria ser. Essa contradição abalou as fundações da matemática e da lógica da época. Lacan utiliza esse paradoxo para comprovar sua hipótese de que sempre existem exceções que demarcam a singularidade. Ele argumenta que o sujeito é dividido e fragmentado, semelhante à forma como o paradoxo de Russell revela uma divisão na lógica. Lacan utiliza o paradoxo para ilustrar a ideia de que o sujeito nunca pode ser completamente consciente de si mesmo, pois sempre há uma parte do inconsciente que permanece inacessível e contraditória.

Esse paradoxo e suas implicações desafiaram as fundações da matemática. Além disso, Lacan introduz a ideia do sujeito como "faltante". Ele formula a teoria de que o sujeito é marcado pela falta, o que é essencial para a constituição do desejo, uma vez que este é sempre direcionado a uma ausência. A busca incessante para preencher essa ausência configura a relação dos sujeitos com seus objetos e é uma característica central da experiência subjetiva. O objeto causa de desejo, conhecido como "objeto a", é, portanto, produzido pela marca dessa angústia constante. Contudo, não podemos


[1] Freud sonhara com a América, e eis que aquela América, por meio do prestigioso convite, lhe augurava que a psicanálise logo sairia, e definitivamente, do meio ambiente vienense. Enquanto o transatlântico deslizava em silêncio sobre as águas ao foz do Hudson para ancorar, em 29 de agosto, à noite, no porto de Hoboken (Nova Jersey), ele avistou a imensa estátua da Liberdade irradiando luzes; voltou-se então para Jung e pronunciou estas palavras: "Se eles soubessem o que lhes trazendo" (ROUDINESCO, p. 180).

 
 
 

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