top of page
Buscar

A juventude perdida unidimessional

  • 1 de mar.
  • 5 min de leitura

A geração nascida entre as décadas de 1990 e 2000 pode ser analisada à luz do conceito de "unidimensionalidade" desenvolvido por Herbert Marcuse em 1964. O que à primeira vista parece mera rebeldia juvenil ou patologia social isolada revela-se, sob exame mais detido, a expressão de um fenômeno mais profundo: a integração total dos indivíduos ao sistema de dominação característico da sociedade pós-industrial, agora atualizada por três ideologias complementares que operam como vetores de subjetivação: a teologia da prosperidade, a ideologia do autoempreendedorismo e a racionalidade toyotista aplicada à própria existência.


O toyotismo como modelo de subjetivação


O toyotismo, originalmente desenvolvido no Japão pós-guerra como modelo de organização do trabalho baseado na produção enxuta (lean production), no just in time e no kaizen (melhoria contínua), transcendeu há muito o chão de fábrica para se converter em paradigma de gestão da própria vida . Seus princípios fundamentais — flexibilidade, polivalência, eliminação de desperdícios, responsabilização do trabalhador pelos resultados e cultura de melhoria contínua — operam hoje como tecnologias de subjetivação que moldam o caráter social dos jovens .


A exigência de "polivalência" que o toyotismo impõe ao operário encontra seu correlato na juventude contemporânea: jovens que precisam ser múltiplos, adaptáveis, capazes de desempenhar diferentes funções simultaneamente, sem nunca atingir um ponto de repouso ou identidade estável. Os "therians" — jovens que se identificam com animais — podem ser lidos como a expressão limite dessa exigência de polivalência: se o sistema requer que sejamos múltiplos, por que não sê-lo literalmente, transmutando a própria espécie?


O just in time, mecanismo central do toyotismo que alinha produção exatamente à demanda eliminando estoques, encontra seu correlato nas relações humanas mediadas por aplicativos: amizades just in time, consumidas no momento exato da necessidade e descartadas em seguida; afetos sob demanda, produzidos na quantidade certa para cada ocasião, sem acúmulo de vínculos que possam gerar "desperdício" emocional . O kaizen — a melhoria contínua — converteu-se no imperativo de autoaperfeiçoamento perpétuo que atormenta os jovens: cursos intermináveis, terapias, coaching, desenvolvimento pessoal, todos operando sob a lógica de que nunca se é suficientemente bom, sempre há algo a melhorar, num processo infinito que, como na fábrica toyotista, transfere para o próprio trabalhador a responsabilidade por sua produtividade e bem-estar .


A ideologia do autoempreendedorismo


Se o toyotismo fornece a forma da subjetivação, o autoempreendedorismo lhe dá o conteúdo ideológico. Trata-se da internalização da máxima de que cada indivíduo é uma empresa de si mesmo, responsável integral por seu sucesso ou fracasso, seus investimentos e resultados, seus ganhos e perdas.


Nessa ideologia, o jovem descrito — "com a cara grudada nos celulares", buscando refúgio em comunidades virtuais — não é um sujeito alienado, mas um empreendedor de si que investe seu capital atencional nas plataformas que maximizarão seu retorno: seguidores, likes, visibilidade. As "birras sem noção" compradas pelos pais deixam de ser mera concessão afetiva para se converterem em investimento na marca pessoal da criança, que aprende desde cedo que suas demandas têm valor de mercado e devem ser recompensadas à altura.


O "vício mais mortal que o vício da medicação da indústria farmacêutica" revela sua face mais perversa: as telas não são apenas escapes, mas os próprios meios de produção do eu-empreendedor. O jovem que passa horas no Discord ou gravando atos de sadismo não está "fugindo da realidade" — está produzindo conteúdo para seu portfólio existencial, acumulando capital simbólico nas redes onde sua subjetividade-empreendimento será avaliada.


A teologia da prosperidade como teodicéia do sucesso


A teologia da prosperidade — originalmente um movimento neopentecostal que postula a riqueza material como sinal da bênção divina — transcendeu há muito o campo religioso para se converter em ideologia secular de legitimação das desigualdades. Em sua formulação original, Deus recompensa os fiéis com prosperidade; em sua versão difusa, o mundo recompensa os merecedores com sucesso.


Essa ideologia opera como justificação última para a indiferença social dos jovens descritos. Se "passam pelas ruas indiferentes, com a cara grudada nos celulares", é porque aprenderam que cada um é responsável por sua própria prosperidade — e, por extensão, a miséria alheia só pode ser resultado de insuficiência pessoal, de falta de fé (agora secularizada como falta de mérito, de esforço, de empreendedorismo).


A "teologia da dominação" que menciona completa o quadro: não se trata apenas de prosperar, mas de dominar — pessoas, situações, espaços. As crianças que "expulsam pessoas de cadeiras em aviões e de consultórios médicos" não são apenas mal-educadas; são pequenos praticantes de uma teologia secularizada da dominação, para quem o espaço público é território de conquista e o outro, obstáculo a ser removido em nome da própria expansão.


A síntese ideológica: o jovem unidimensional na sociedade pós-industrial


A articulação dessas três ideologias produz um tipo específico de subjetividade que Marcuse poderia reconhecer como a forma contemporânea da unidimensionalidade. O toyotismo fornece a forma (flexibilidade, adaptabilidade, melhoria contínua); o autoempreendedorismo fornece o conteúdo (cada um é empresa de si mesmo); a teologia da prosperidade/dominação fornece a justificação (o sucesso prova o valor, a dominação prova a eleição).


Quando esses jovens se comportam "ora como pequenos nazistas, ora como therians, ora gravando sadismo em redes como o Discord", testemunhamos não uma psicose generalizada, mas a lógica toyotista da polivalência levada às últimas consequências: é preciso ser múltiplo, adaptar-se a diferentes públicos e plataformas, produzir conteúdos diversos para diferentes nichos de mercado atencional. A violência, o sadismo, a identificação animal — tudo se converte em modalidades de performance disponíveis no repertório do eu-flexível, do trabalhador polivalente que aprendeu que deve ser capaz de entregar qualquer produto que o mercado demande.


O "fechamento do universo de discurso" diagnosticado por Marcuse ganha aqui nova dimensão: essas ideologias não operam por coerção explícita, mas por sedução, oferecendo ao mesmo tempo a promessa de realização (a prosperidade, o sucesso empreendedor, a flexibilidade libertadora) e o mecanismo de culpa (se você não prospera, é porque não teve fé, não empreendeu o bastante, não se adaptou com flexibilidade suficiente).


A "geração perdida" talvez não esteja perdida, mas sim hiperintegrada — integrada a um sistema que, como Marcuse previu, eliminou as contradições aparentes e neutralizou a oposição justamente por incorporá-las como estilos de vida, identidades performáticas e nichos de mercado. O jovem que se identifica como therian, o que grava sadismo no Discord, o pequeno tirano doméstico — todos encontram lugar nas prateleiras da diversidade tolerada pelo capitalismo pós-industrial, desde que continuem operando como consumidores e produtores de conteúdo, como empreendedores de si mesmos, como crentes na teologia secular do merecimento.


A questão que Marcuse nos lega permanece: onde encontrar as forças capazes de romper com essa unidimensionalidade quando a própria rebeldia se converteu em mercadoria, quando a identificação com animais ou a encenação da violência são apenas mais produtos no vasto estoque just in time da indústria cultural? Talvez a resposta esteja, como ele sugeriu, não nos integrados, mas naqueles que o sistema não consegue absorver — não porque resistam ativamente, mas porque sua própria existência já é, em si mesma, a contradição que o discurso unidimensional não pode nomear.


Referência teórica:


MARCUSE, Herbert. O Homem Unidimensional

 
 
 

Comentários


bottom of page