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A Excomunhão

há 2 minutos
6 min de leitura


Esta postagem é um desmentido institucional. Isto é, algumas notas sobre a captura do método, poder e reserva de mercado na formação analítica


​A conversão da psicanálise em disciplina domesticada e aparelhada por lógicas corporativas constitui um dos fenômenos mais regressivos da história contemporânea da formação clínica.


Quando um dispositivo criado para subverter a adaptação subjetiva e emancipar a palavra do recalque passa a ser agenciado por sociedades analíticas e órgãos de classe como ferramenta de adestramento, monopólio econômico e tutela simbólica, torna-se imperativo romper radicalmente com a complacência do silêncio corporativo.


Este ensaio não visa ajustar contas de foro íntimo nem formular apelos de inclusão dirigidos a quem opera pelo expurgo; seu propósito é traçar uma ruptura formal com as práticas dessas instituições, desvelando a engrenagem material e política mediante a qual a hierarquia formativa é capturada como reserva de mercado e mecanismo de perpetuação de poder.


​A cena clássica que fundamenta a dinâmica dessas associações encena-se invariavelmente sob o signo da cooptação e do descarte arbitrário. Indivíduos com trajetórias intelectuais e clínicas consolidadas são sistematicamente atraídos para o interior desses espaços, integrados a tarefas institucionais, comissões e atividades docentes não remuneradas sob a promessa tácita de pertencimento e legitimação simbólica.


Contudo, assim que essa presença tensiona o equilíbrio endogâmico do grupo ou questiona as linhas de comando, opera-se a exclusão sumária, executada em bastidores e chancelada pela violência ontológica do desmentido: a afirmação cínica de que jamais houvera qualquer pacto, combinação ou compromisso.


O que se articula nesse expediente não é um desencontro fortuito de expectativas, mas a manifestação deliberada do desmentido institucional. Trata-se da imposição coercitiva de um duplo vínculo, no qual a materialidade dos fatos e a integridade da percepção do sujeito são desqualificadas pela palavra autorizada da corporação.


​A psicanálise legou as ferramentas metapsicológicas para a denúncia desse processo. Em sua célebre conferência no Congresso de Wiesbaden, Sándor Ferenczi (1933/1992) situou o núcleo desestruturante do trauma não no evento originário em si, mas na resposta do ambiente adulto que anula e distorce o relato da vítima:


​"O pior, porém, é verdadeiramente o desmentido do ocorrido, o sustentar a mentira como se nada tivesse acontecido, [...] a criança é declarada louca ou se sente como tal."

(FERENCZI, S. Confusão de línguas entre os adultos e a criança. In: Obras Completas: Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 102).


​Transposto para a escala das agremiações psicanalíticas e dos conselhos profissionais de psicologia, o desmentido deixa de ser uma categoria clínica para se converter em tecnologia de gestão institucional. O analista sênior ou o dirigente burocrático que profere a negação opera como encarnação viva da autoridade epistêmica.


O protocolo do abuso e da manipulação institucional cumpre etapas precisas: cooptação pelo pertencimento; extração de trabalho funcional; descarte desprovido de mediação; negação retrospectiva de qualquer acordo preexistente; e, culminando o processo, a patologização da lucidez. Qualquer reivindicação de justiça ou apontamento da arbitrariedade cometida é imediatamente desqualificada pelo repertório teórico capturado pelo poder: a divergência política é degradada a "transferência negativa"; a exigência de clareza converte-se em "resistência neurótica"; a indignação perante o desmando passa a ser tratada como "atuação psicótica". A violência perpetrada pela instituição transmuta-se, assim, em diagnóstico incapacitante contra quem ousa confrontá-la.


​Esse dispositivo atinge o paroxismo quando se articula àquilo que as epistemologias críticas definem como injustiça epistêmica.


Ao investigar a correlação entre poder social e rebaixamento da credibilidade discursiva, Miranda Fricker (2007) demonstra como determinados corpos e falantes são sistematicamente despojados de sua capacidade reflexiva por quem controla os meios de validação do discurso:


​"A injustiça testemunhal ocorre quando o preconceito faz com que o ouvinte atribua um nível rebaixado de credibilidade à palavra do falante; a injustiça hermenêutica ocorre em um estágio anterior, quando uma lacuna nos recursos interpretativos coletivos coloca alguém em desvantagem injusta no momento de dar sentido às suas experiências sociais."

(FRICKER, M. Injustiça Epistêmica: O poder e a ética do saber. Oxford: Oxford University Press, 2007, p. 1, tradução livre).


​No interior das redes corporativas da psicanálise e da psicologia, a imposição diagnóstica atua com frequência como violência epistêmica disciplinar. Quando a fala de um clínico é confrontada não pelo debate de ideias, mas pela aplicação autoritária de um rótulo psicopatológico que silencia sua formulação, a interpretação deixa de ser ferramenta analítica para se tornar técnica de assujeitamento.


Gayatri Chakravorty Spivak (1988) advertiu de maneira contundente sobre o aniquilamento do sujeito quando ele é falado e categorizado pela estrutura que o oprime sem que sua resposta encontre canal de circulação:


​"O subalterno não pode falar. Não há virtude em listas de lavanderia globais com a 'mulher' como um item piedoso. A representação não desapareceu."

(SPIVAK, G. C. Pode o subalterno falar?. Tradução de Sandra Regina Goulart Almeida et al. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010, p. 110).


​Essa estrutura opressiva responde, sobretudo, a uma rigorosa economia política de controle de mercado. Por trás da mística da "transmissão pura", do sacerdócio da escuta e da assepsia técnica das comissões de ensino, reside um ecossistema de captura econômica destinado a garantir reservas de clientela aos estratos superiores das agremiações.


Os membros de topo das sociedades psicanalíticas e das cúpulas associativas da psicologia estruturam a formação como um esquema de servidão piramidal: o pretendente à formação precisa consumir anos de análise didática obrigatória e supervisões compulsórias cobradas a valores extorsivos pelos próprios analistas credenciados pela casta dominante. Esse circuito fechado opera como um duto permanente de pacientes e capitais que sustenta o topo da pirâmide às custas do endividamento, da submissão e da infantilização prolongada dos ingressantes.


A promessa de "encaminhamento de casos" e inserção no mercado atua como a moeda de troca que compra o silêncio de analistas em formação perante abusos, fraudes pedagógicas e desmandos institucionais. Quem recusa o pacto de vassalagem tem o fluxo de indicações bloqueado e sua reputação minada por campanhas de desmoralização intestina.


​A sociologia psicanalítica das instituições desmascarou a essência desses conluios defensivos. Ao analisar os alicerces psíquicos que sustentam os grupos, René Kaës e seus colaboradores (1988) demonstraram que a conservação da integridade grupal assenta-se sobre acordos inconscientes de encobrimento mútuo:


​"O pacto denegativo é uma metadefesa: ele exige e mantém o apagamento dos vestígios daquilo que poderia ameaçar o vínculo [...] O que constitui o objeto do pacto denegativo é condenado ao esquecimento, ao silêncio, ao desmentido ou à expulsão."

(KAËS, R. et al. A instituição e as instituições: Estudos psicanalíticos. Tradução de Joaquim A. Severino. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1991, p. 37).


​O pacto denegativo constitui a blindagem estrutural dessas agremiações. Para manter o mito da instituição como espaço de ética desinteressada, todo elemento que denuncia a voracidade mercantil, a reprodução dinástica e a manipulação da transferência precisa ser extirpado e desmentido coletivamente.


Em paralelo, os conselhos corporativos de fiscalização profissional, ao invés de resguardarem a sociedade civil contra a precarização e o arbítrio, funcionam prioritariamente como muralhas de imunização corporativa: zelam pela blindagem de nomes ilustres e pelo monopólio corporativo, empurrando para o denunciante todo o ônus da humilhação, da burocracia inerte e do ostracismo social.


​Como observava José Bleger (1967/1984), o enquadramento institucional opera como o depósito das partes mais sincréticas, indiscriminadas e simbióticas da personalidade; a sua violação cínica expõe os níveis mais primitivos de violência:


​"O enquadre é o depósito da parte sincrética ou simbiótica da personalidade, e quando ele se altera ou se rompe sem elaboração, o que se traz a descoberto é o núcleo de violência e desorganização que permanecia mudo." (BLEGER, J. Simbiose e ambiguidade: Estudo sobre a contradição e a identidade. Tradução de Genny Rolim. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1984, p. 268).


​A mercantilização da transferência e a militarização das hierarquias revelam essa desorganização estrutural latente: para assegurar o feudo clínico, a instituição não vacila em operar como aparelho inquisitorial contra qualquer um de seus membros que desponte com autonomia teórica ou clínica.


​As repercussões de tais agressões sobre os clínicos alvejados pelo desmentido manifestam-se frequentemente sob o registro do trauma cumulativo: estados de exaustão, quebra radical da confiança nos laços de pares, somatizações e um profundo isolamento gerado pela constatação de que a ética professada em seminários é frontalmente desmentida pela prática administrativa cotidiana.


Diante desse cenário, a saída não reside na conciliação ingênua, na busca humilhante por reabilitação perante tribunais burocráticos ou no ressentimento infértil. A ruptura ética exige a retirada definitiva da demanda de reconhecimento endereçada a esses cartéis do saber.


Romper com essas instituições e seus aparelhos burocráticos significa recusar o papel de engrenagem subordinada a um esquema de tutela e extorsão disfarçado de transmissão psicanalítica.


​A psicanálise, enquanto método de investigação do inconsciente e práxis emancipatória, não é patrimônio privado de institutos, títulos societários ou chancelas de conselhos. A verdadeira sustentação do ofício analítico se faz no rigor do trabalho clínico cotidiano, na honestidade teórica perante o arquivo e na coragem de nomear as estruturas materiais que pervertem a ética da palavra em mercadoria de poder. O testemunho da ruptura, ao transformar a violência velada em análise crítica das estruturas, dissolve o poder paralisante do desmentido e devolve à práxis clínica a dignidade que o corporativismo institucional insiste em destruir.


​Referências bibliográficas

​BLEGER, José. Simbiose e ambiguidade: Estudo sobre a contradição e a identidade. Tradução de Genny Rolim. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1984.

​FERENCZI, Sándor. Confusão de línguas entre os adultos e a criança (A linguagem da ternura e da paixão). In: Obras Completas: Psicanálise IV (1927-1933). Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 1992. p. 97-106.

​FRICKER, Miranda. Epistemic Injustice: Power and the Ethics of Knowing. Oxford: Oxford University Press, 2007.

​KAËS, René et al. A instituição e as instituições: Estudos psicanalíticos. Tradução de Joaquim A. Severino. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1991.

​SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar?. Tradução de Sandra Regina Goulart Almeida, Marcos Pereira Feitosa e André Pereira Feitosa. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.

 
 
 

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