A Farsa da Psicanálise e o Consenso Social

A aproximação entre a engenharia do consentimento de Edward Bernays e o conceito de indústria cultural, desenvolvido por Adorno e Horkheimer, permite avançar na compreensão das formas contemporâneas de manipulação da opinião pública.
Se Bernays identificava a possibilidade de conduzir as massas por meio da organização dos desejos e das disposições inconscientes, a indústria cultural amplia essa discussão ao demonstrar que a própria produção da consciência está submetida às determinações de uma sociedade organizada pela mercadoria.
Não se trata mais apenas de convencer indivíduos a aderirem a determinadas ideias, mas de compreender como os mecanismos de comunicação, entretenimento e reconhecimento social participam da reprodução de uma determinada forma de sociabilidade.
As mídias sociais introduzem uma nova dimensão nesse processo. A circulação permanente de imagens, discursos e interpretações não apenas informa ou entretém. Ela organiza formas de identificação, estabelece parâmetros de reconhecimento e produz hierarquias de legitimidade. A autoridade já não depende exclusivamente da formação acadêmica ou da inserção institucional. Ela também é construída pela visibilidade, pelo número de seguidores, pela capacidade de mobilizar afetos e pela repetição de determinadas narrativas.
Nesse ambiente, o conhecimento pode se transformar em mercadoria e a autoridade intelectual, em capital simbólico administrado pelas plataformas.
É nesse cenário que merece atenção a atuação de determinados psicanalistas contemporâneos nas redes sociais.
Profissionais que dispõem de reconhecimento clínico e acadêmico podem utilizar sua posição para além da transmissão de conhecimentos: passam a ocupar o lugar de intérpretes autorizados da realidade política e social, atribuindo diagnósticos morais e psicológicos a comportamentos coletivos, posições ideológicas e divergências intelectuais.
O problema não reside na participação política dos psicanalistas, que possuem o mesmo direito de expressão dos demais cidadãos, mas na utilização da autoridade clínica como instrumento de desqualificação do dissenso.
A operação torna-se particularmente delicada quando conceitos oriundos da psicanálise são retirados de seu campo de elaboração e empregados como rótulos para classificar adversários, explicar divergências políticas ou estabelecer fronteiras entre sujeitos considerados conscientes e aqueles apresentados como incapazes de compreender a realidade.
O vocabulário do inconsciente, do narcisismo, da perversão, da identificação e da resistência pode, nessas circunstâncias, perder sua função investigativa e adquirir uma finalidade disciplinadora.
Em vez de interrogar a complexidade dos processos subjetivos, passa a oferecer explicações prontas para comportamentos que deveriam ser examinados em suas determinações históricas, sociais e políticas.
Há, nesse movimento, uma inversão que merece ser problematizada: o instrumento criado para colocar em questão as certezas do sujeito pode ser convertido em recurso para estabelecer novas certezas sobre o outro.
O psicanalista deixa de ocupar exclusivamente a posição daquele que interroga os mecanismos de produção do sofrimento e passa a se apresentar, em determinadas circunstâncias, como autoridade capaz de identificar patologias naqueles que discordam de sua leitura política.
As plataformas digitais favorecem essa dinâmica porque recompensam a comunicação rápida, a simplificação dos conflitos e a produção de conteúdos capazes de provocar identificação imediata.
A complexidade conceitual, que exige tempo e elaboração, disputa espaço com vídeos curtos, frases de efeito e interpretações categóricas. A reflexão cede lugar à sentença; o argumento, à identificação; a elaboração, à reação. Nesse ambiente, a autoridade do profissional pode ser mobilizada para conferir aparência científica a posições que, muitas vezes, permanecem no campo da opinião política.
Não se pode ignorar também a dimensão econômica desse fenômeno.
A presença nas redes pode funcionar como estratégia de promoção profissional, ampliação de clientela e valorização de uma marca pessoal. O discurso psicanalítico passa, então, a circular segundo exigências de visibilidade e consumo. A crítica social corre o risco de ser transformada em produto, enquanto o sofrimento coletivo se converte em conteúdo para alimentar a própria economia da atenção.
Essa transformação não significa que todos os psicanalistas que utilizam as redes estejam comprometidos com práticas de manipulação. A questão é investigar os mecanismos pelos quais a autoridade profissional pode ser convertida em poder de influência, especialmente quando a linguagem clínica é empregada para produzir constrangimento, estabelecer hierarquias morais e deslegitimar posições divergentes.
A situação ganha outra dimensão quando essas práticas encontram respaldo em entidades profissionais, grupos de formação ou instituições que deveriam preservar o pluralismo intelectual.
O pertencimento a determinada corrente teórica ou posição política pode passar a funcionar como critério informal de reconhecimento, enquanto a divergência é interpretada como ameaça à comunidade. A exclusão simbólica, nesse contexto, não precisa ser anunciada como censura. Pode aparecer sob a forma de advertências morais, insinuações sobre a saúde psíquica do interlocutor ou acusações que deslocam a discussão de seu conteúdo para a suposta estrutura subjetiva de quem fala.
É necessário, portanto, distinguir a crítica política legítima da instrumentalização do saber clínico. A psicanálise não perde sua dimensão crítica por reconhecer que o sujeito é atravessado pela ideologia. O problema surge quando essa compreensão é utilizada seletivamente, como se os mecanismos inconscientes e as determinações ideológicas estivessem sempre presentes no adversário, mas nunca naquele que formula a acusação.
A crítica de Adorno e Horkheimer ajuda a compreender essa contradição. Na sociedade administrada, a própria contestação pode ser incorporada aos circuitos de produção e consumo. A rebeldia pode tornar-se uma mercadoria, a crítica pode adquirir a forma de espetáculo e a identidade política pode funcionar como produto de reconhecimento. O psicanalista que se apresenta nas redes como representante de uma consciência supostamente superior não está necessariamente fora dessa lógica. Pode, inclusive, reproduzi-la enquanto acredita combatê-la.
A questão fundamental, portanto, não é saber se os psicanalistas devem ou não se posicionar politicamente. É investigar o que acontece quando o saber sobre o inconsciente se transforma em instrumento de poder sobre a consciência alheia.
Quando a autoridade clínica é mobilizada para conduzir percepções, estabelecer consensos e produzir constrangimento diante da divergência, a psicanálise corre o risco de participar justamente dos mecanismos de disciplinamento que sua tradição mais crítica deveria interrogar.
O paradoxo é profundo: um campo de conhecimento que nasceu da ruptura com as ilusões da consciência pode ser apropriado para fabricar novas ilusões de superioridade moral e intelectual. Esta é a farsa da psicanálise que produz o consenso social. Nesse caso, a captura ideológica não ocorre apesar do discurso psicanalítico, mas pode ocorrer por meio dele.



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